Cristo "pescador de almas"




Há anos, no regresso de uns curtos dias de férias a Castela e Leão, guinei inesperadamente quando li a tabuleta a indicar Sabugal. Sempre desejei conhecer aquela vila. Como nunca se tinha atravessado nas minhas deslocações profissionais, pensei, é hoje. Senti que lhe tinha de prestar vassalagem. Não me arrependi, nem poderia, perante a carga histórica que lhe está associada. Efetuei um pequeno périplo, almocei e fui até ao castelo. O dia escaldava. Cheguei a pensar que o diabo, se passasse por aquelas bandas, deveria sentir-se bastante incomodado.

A beleza do local aliada ao silêncio do auge do verão empurraram-me para tempos remotos, provocando-me uma sensação agradável. Certos ambientes ajudam-me a viajar no tempo. Viagens que não desgosto de fazer. Lembrei-me do poeta, aventureiro, herói e brigão Brás Garcia de Mascarenhas, autor do "Viriato Trágico", que ali foi aprisionado como traidor à pátria. Uma vida fascinante, começada em Coimbra quando feriu gravemente um nobre por ter traído um amigo, coisas de saias. Preso, conseguiu fugir. Depois foi um corrupio por esse mundo fora e por cá, também, que digam os castelhanos. Lembrei-me do episódio em que com linhas, agulhas, tesoura, farinha de trigo e um livro religioso para consolo da alma, que o governador, condoído, lhe emprestou, conseguiu, recortando e colando as letras, escrever ao rei a originalíssima carta expondo a sua situação. O soldado enviado por um amigo levou-a à corte. D. João IV mandou, naturalmente, libertá-lo.

Ao sair do castelo, apetrechado com uma série de livros sobre a localidade e romances de autoria de pessoas ilustres da terra, cujos nomes e feitos deverão limitar-se ao concelho e zonas vizinhas, mas que nem por isso deixam de ser verdadeiramente importantes, tropecei numa pequena loja recheada de muitos e interessantes artigos, desde pedras parideiras até imensos artefactos hebraicos. Bem visto as coisas não era de espantar, já que naquelas zonas os judeus encontraram algum sossego durante pelo menos algum tempo. A senhora reparou na minha surpresa e, delicadamente, levou-me até ao piso inferior onde tive oportunidade de ver uma velha casa hebraica com sinais e locais destinados ao culto. Passei um bom bocado da tarde na conversa. Antes de sair chamou-me a atenção, no meio de muito material judaico, duas imagens em barro, um Cristo na cruz, muito efeminado, diria mesmo provocante e um Cristo sentado num estranho banco, que não se conseguia por em pé, com uma rede nas mãos, muito ocupado a apanhar almas, estas representadas por pequenos peixes. Riu-se, eu também, Cristos naquele local? Ao pegar no "pescador de almas" senti-me atraído pela sua beleza e arte. Ao fim de algum tempo, disse-lhe para que o empacotasse. Embora não fosse barato não discuti o preço. Naquele momento lembrei-me de um conselho que um judeu me deu há longos anos, não há dinheiro que substitua o prazer de uma obra de arte. Pois é, desde que haja dinheiro! Enfim, ao fim de algum tempo já não me recordava do preço.

Não sendo um estudioso da Bíblia lembro-me que a passagem que faz referência aos "pescadores de homens" marca o início da convocação dos primeiros apóstolos, quando Cristo arrebanhou Pedro, André, Tiago e João, oficiais da pesca, para se colocarem ao serviço da sua doutrina. "Farei de vós pescadores de homens". Pena foi que ao longo do tempo muitos dos "pescadores de homens" se tivessem transformados em "caçadores de homens". Naquele local sentia-se essa violação dos princípios cristãos.

Olho para o meu Cristo "pescador de almas", que não se equilibra, tenho de o encostar à parede, de semblante baixo e preocupado a olhar para a rede onde algumas almas escamosas se encontram presas.

Liberto-as ou não? Julgo que é o que está a pensar!

Nunca mais se decide! Não faz mal. Eu espero.

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