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A mostrar mensagens de Dezembro, 2012

“Arte ou necessidade” de enganar.

A espécie humana apresenta características próprias, sendo algumas particularmente interessantes, universais e tão frequentes que esbarramos nelas a toda a hora, em todos os locais e níveis sociais. Pretendo destacar uma delas que nos incomoda, que nos faz sentir pequenos, responsável às vezes por elevados prejuízos, sofrimento físico, morte de alma ou simplesmente por pequenos custos que com o tempo se esquecem; de qualquer modo deixam sempre qualquer coisa a moer por dentro, alertando-nos para que não caiamos novamente. Trata-se do engano. A capacidade de enganar está muito disseminada, a ponto de, em determinadas circunstâncias, chegar a ser considerada como normal, como uma forma de vida, havendo técnicas mais ou menos elaboradas para conseguir que as pessoas adquiram os serviços e os bens em causa. Neste caso basta ver a publicidade que passa na televisão, abusiva, distorcida, eticamente condenável, mas legal, em que vários agentes se "enfeixam" com a maior das naturalid…

Quebrar a confidencialidade

A medicina tem-se tornado cada vez mais defensiva, com implicações óbvias para todos, especialmente para os doentes, que vai desde um certo grau de "desumanização" a tratamentos "excessivos" passando pela sujeição a exames muitas vezes desnecessários.  A reforçar este comportamento tem contribuído algumas decisões judiciais. A última prende-se com a condenação de uma psiquiatra francesa por homicídio que foi cometido por um dos seus doentes. Como não reconheceu o "perigo público" do doente, que matou a avó, devido a facto de ter problemas mentais, a médica passou a ser a responsável.  Há anos o caso Tatiana Tarasoff criou um novo paradigma nestas áreas, a quebra da confidencialidade. Um estudante indiano matou uma jovem que era sua amiga, ao  interpretar mal a situação, julgou que a moça estava interessada nele devido a questões culturais. A rapariga afastou-se, o rapaz entrou em depressão, andou em tratamento e, segundo a versão dos pais, terá confessad…

Acreditar ou fingir.

Há momentos da vida que são recordados com mais intensidade do que outros, não por serem mais graves ou mais intensos, apenas porque se associam a festividades que, pela sua natureza, acabam por os colocar no altar da injustiça, no cofre da indiferença e no cemitério da dor, obrigando a refletir sobre a incompreensão do erro da vida. Um erro monstruoso e sem sentido com o qual vivemos o nosso dia-a-dia. Nem mesmo as palavras de paz, os votos de felicidades, as mensagens estereotipadas e as inúmeras ceias são capazes de encher o bandulho da alma. Mesmo que sintam algum conforto gástrico ou mental promovidos por um bacalhau quente ou regados mais à-vontade com um vinho de melhor qualidade não conseguem esconder tudo o resto. É apenas uma forma de fingimento, porque serão muito poucos os que ainda acreditam na solidariedade, na esperança de melhores dias ou na vontade de transformar o mundo, e os que acreditam, ou fingem acreditar, andam bem recheados todo o ano. Os outros estão condenad…

Quebra de confidencialidade

Sedução

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Jogar é uma atividade permanente da nossa espécie, serve para aprender, serve para crescer, serve para divertir, serve para competir, serve para tudo, serve até para seduzir. Todos procuram a sedução. Seduzir e ser seduzido não é mais do que a procura de uma estranha sensação, momentânea, bela, rica, cheia de cores e de sons, que nos faz deslizar num precipício de doce prazer, que se esgota rapidamente na indiferença, convertendo-se amiúde num pesadelo, relembrando dolorosas agonias ou antevendo o fim num estertor melancólico. Todos procuram a sedução, sabendo que acaba normalmente em cinzas de desespero, fertilizando sofrimentos e sentimentos que a memória se recusa a esquecer.  Ninguém esquece um olhar, um som, uma imagem, uma carícia, uma palavra, uma brisa, uma nuvem, um raio de sol perdido, uma queda de água tímida, uma árvore vaidosa, uma bela flor solitária, uma lembrança perdida e achada à esquina de um trivial dia, ninguém esquece, todos querem recordar para poderem sentir a m…

Frioleiras

Conheço-a há muito tempo. Entra sempre com um sorriso muito belo e suave, um sorriso do qual emana confiança, alegria e humildade, um sorriso alcandorado numa atitude aristocrática. A voz, delicada e bem timbrada, cativa-me, porque se trata de uma voz que nunca envelheceu. Ouvindo-a sem a ver seria incapaz de decifrar a idade. Tem idade para ser minha mãe. Está doente. Aceita os seus males e vai convivendo com a situação com um à-vontade incrível. Impressiona-me o seu caráter e a forma como encara o futuro. Sempre que surge alguma complicação telefona-me ou aparece-me, e, deste modo, vamos resolvendo os assuntos. Mulher prática capaz de sugerir soluções que me deixam meio deslumbrado.
Gosta imenso de conversar, mas como é natural nestas pessoas evita prolongar a sua presença com receio de perturbar a consulta. Sou eu que a retenho, porque é bom e saudável falar com pessoas deste nível. Desta feita comentou um escrito meu, tinha apreciado o seu conteúdo, e completou o comentário dizen…

Libertação da alma

Levantou-se de manhã um pouco estranha para o que era habitual. Não conseguiu perceber a razão, mas não ficou preocupada. Levantou-se, esperançada de que algo de bom lhe iria acontecer. Vestiu o belo vestido garrido feito com linhas do arco-íris da adolescência, espantosamente belo e leve. Em seguida buscou o colar de pérolas, pérolas feitas da amargura da sua vida. Colocou-as em redor do pescoço e sentiu algum frio, frio não desagradável, apenas um frio contido a querer testemunhar a transformação do sofrimento num belo enfeite que lhe apetecia ostentar nesse dia. Abriu as janelas de par em par, e uma lufada de ar fresco, a querer adivinhar o nascimento de um dia quente, acariciou o seu rosto tranquilo e o colo que se debatia enigmaticamente com o temperamento do colar. O vestido esvoaçou de contente querendo imitar o arco-íris do qual tinha nascido. Foi então que um suave e silencioso nevoeiro começou a surgir perante os seus olhos como se o mesmo libertasse minúsculas e quentes got…

Matança de crianças

Santa Luzia

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Não me recordo muito bem. Deve ter sido há mais de vinte anos. Fui sem vontade e com a alma atormentada para as bandas da Escandinávia. Foi a primeira vez que cheguei a um local onde a noite era rainha. O frio nunca me perturbou, mas a distância e a negrura da alma intensificavam-me a dor. A obrigação impôs-se sem se importar com o que eu sentia ou pensava. Levantava-me de noite e almoçava durante o crepúsculo, e de tarde, que coisa mais estranha chamar tarde à noite prematura, sentia a falta de tudo, da luz e do calor da minha terra e da minha casa. Pedi um dia autorização para um curto intervalo e perguntei qual era o edifício mais alto da cidade. Entreolharam-se com tão inusitada pergunta e, amavelmente, indicaram-me um. Não era muito alto, a cidade era baixa, mas foi o suficiente para espreitar que lá em baixo, no horizonte, girava, melancolicamente, a cabeça de um arco avermelhado, testemunha da imagem do sol, que sabia ser visto em todo o seu doirado no meu país. Senti a sua fal…

Granito com vida

Certos espaços fazem-me recuar no tempo, no tempo real e no tempo virtual. Vejo-os vezes sem conta e sem contar acabo por fantasiar. Sento-me no carro e olho para a fachada. Bela, sedutora, uma renda de granito que deve ter levado anos a executar. Cheia de símbolos, harmoniosa e esfomeada de sol. Há mais de duzentos anos foi esculpida num granito duro. Pique, pique, pique e as lascas ao soltarem-se iam deixando transparecer uma joia delicada. Imagino os autores, pequenos, magros, tossindo a torto e a direito, não devido ao tabaco, mas ao pó, barbas selvagens, bebendo mistura de vinho e água a partir de cabaças obesas e encardidas, mastigando cebolas com sal, roendo figos secos e comendo pão com toucinho rançoso. A encomenda saía-lhes como água fresca da fonte. Persignavam-se nos momentos certos, rezavam ao sabor do sino e refreavam os seus temores com a benção dos religiosos. Os seus ossos já não devem existir ou, então, já não sabem onde os deixaram, pouco importa, o que interessa é …

"Affluenza"

Respeito e admiro imenso as pessoas que ajudam as demais em atos de solidariedade e de amor. Faz parte da essência de algumas almas e sempre minimizam algum sofrimento.
Há pouco tempo a responsável máxima do Banco Alimentar despertou reações intensas de oposição porque esbarrou, sem qualquer espécie de dúvida, contra alguns interesses ideológicos. Não é que não tenha o direito a exprimir as suas opiniões, mas o simples facto de estar constantemente "visível" pode despertar alguma animosidade. Há quem veja interesses mais ou menos obscuros, há quem interprete a iniciativa como sinónimo de defesa de doutrinas específicas, há quem veja, inclusive, um obstáculo contra as próprias causas que estão na base da pobreza gerada pela sociedade. Enfim, há interpretações para todos os gostos, como não poderia deixar de ser.
São muitas as organizações que neste país se dedicam a auxiliar o próximo, muitas delas praticamente desconhecidas e que mesmo assim conseguem atingir os seus objeti…

Para quê? Para nada.

Para quê? Para nada. Tudo termina e um dia o descanso surgirá finalmente, um descanso que só se alcança depois de ultrapassar o extenso deserto da ansiedade. Até para descansar é necessário caminhar sobre vidros do sofrimento. Para quê? Para nada. Apontam-nos e acenam-nos com ilusões, só ilusões, porque a esperança é feita desse tecido imaginário. Os que acreditam ainda conseguem iludir a dor, mas não deve ser por muito tempo, porque o seu fundo sabe que tudo não passa de uma fantasia sem interesse e sem razão. Não há razão que justifique tamanha incerteza e nem há pensamento que explique a vida, nada faz qualquer sentido, apenas durante o tempo em que conseguimos iludir-nos a nós próprios, mera e passageira fantasia que se esgota no próprio tempo, cínico e falso companheiro de todos os minutos da existência. Para quê? Para nada. Mais valia adormecer para sempre embrulhado em sonhos de fantasmas, sempre seria mais consentâneo com a realidade e com o desejo. Não se entendem? Para quê e…

Radicalismos

O espetro político ou ideológico é muito vasto e traduz mesmo um continuum que vai da esquerda radical ao ultraconservadorismo da direita. Nas sociedades que estão em equilíbrio social e económico estas franjas constituem uma pequena fração perfeitamente controlada pelos cidadãos e forças sociais e políticas. Quando começam a ocorrer desequilíbrios, como é o caso presente, o desconforto generaliza-se como um vírus altamente contagioso e extremam-se certas posições. Muitos dos que foram, e ainda são, o garante da estabilidade da paz social apresentam sinais de polarização que se acentuam dia para dia deixando vazio um espaço vital. Basta estar atento, ouvindo os comentários do cidadão comum ou lendo os desabafos e críticas nas redes sociais, sobretudo aqueles que ainda há pouco tempo não faziam qualquer mossa nem manifestavam tal tendência, para confirmar esta preocupação. Os que se posicionam à “direita” afastam-se cada vez mais para o polo conservador, e até mesmo ultraconservador, e …