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"Apetece-me"...

Apetece-me escrever. Não me faltam motivos. Leio as notícias e fico incomodado. Não sei para quê. São sempre as mesmas coisas. A natureza humana desfruta a seu bel prazer a idiotice, a ganância, a sovinice, a trafulhice, embrulhados no mais poderoso dos desejos, o poder. Poder de mandar, poder de ter, poder de ofender, poder de humilhar, poder de escravizar, poder nas suas mais diversas versões obscenas. Uma espiral que nunca irá ter fim. No meio de tanta miséria e degradação surgem sempre alguns momentos e situações que são confortáveis. O amor, a solidariedade, a humildade, a honestidade e o prazer de confortar e ajudar o próximo são lindos, mas não passam de belos cometas que se passeiam pelo longínquo universo onde aparentemente se aloja o segredo da vida. Um encanto, uma miragem, uma utopia, saber que podemos encontrar as promessas de fantasia que um dia foram povoadas em pequenos cérebros convictos de que a vida seria a beleza prometida em cantos e contos de fantasia. Pouco mais…

Ambivalência...

Nem sei como classificar certas opiniões sobre o comportamento das pessoas. Não sei mesmo se deva fazer isso. Às tantas não passo de um atrevido pretensioso. Às tantas. Mesmo assim não resisto a escrever o que sinto. É sempre uma forma de libertar algum mal-estar.  Fazer análises sobre o comportamento das pessoas e ficar, aparentemente, incomodado parece-me excessivo. Tão excessivo como a passagem da idolatria para a malquerença ou raiva inusitada. Esta ambivalência não é típica dos portugueses, não há nenhum povo que não a manifeste. Logo, o facto de identificar a tal ambivalência com os nacionais é excessivo e injusto . Este fenómeno é recorrente e universal. Deixem andar, o ser humano tem essa característica, ama e exulta num determinado momento para logo em seguida insultar, humilhar ou manifestar que se sente ofendido. Tudo relativamente às mesmas pessoas ou grupos. Não há nada a fazer. O ser humano tanto pode estar a criticar e a ofender injustamente o próximo num instante qualqu…

Morte...

Tive sempre um fascínio pela morte. Algumas recordações possibilitam-me afirmar que sou capaz de a definir como a vi pela primeira vez. Uma ladra. Ao acordar ouvi uma conversa. A minha mãe falava com a vizinha na cozinha. Falavam da morte da menina. Era a minha companhia. Adoeceu com a mesma doença que eu tive. Ela morreu. Fiquei a pensar: - Se morreu nunca mais vamos brincar. Eu gostava muito de estar com ela. Tinha a minha idade. Já tinha visto gatos, cães, pássaros, e até  uma cobra, mortos. Não se mexiam e ficavam feios. Comecei a pensar como seria o aspeto dela. Levantei-me e perguntei se podia ir vê-la. Ficou indecisa, mas depressa se recompôs e disse: - Podes. Como tiveste a mesma doença, agora já não corres risco de voltar a adoecer. - Vamos? Disse-lhe. - Espera um pouco. Ainda devem estar a prepará-la. - A prepará-la? O que é isso? Perguntei meio confuso. - Devem estar a lavá-la e depois têm que a vestir. - Mas os mortos também tomam banho? Para quê? Olhou-me e não disse nad…

Palavra...

Não tenho medo da palavra. Tento utilizá-la com precisão, pintá-la com discrição, cantá-la com emoção, calar-me por atenção, gritar com paixão e esquecê-la por perdão.  A palavra é a mais singela pétala de uma alma temerosa de ver o mundo. Sedosa, bela, pura, depressa se torna em húmus infeliz da mais estranha podridão.  Não deveria haver flores.  Não encontro razão para acariciar e cheirar a mais bela ilusão.

Fogo...

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Não tive intenção. Gosta da pintora que se especializou, se é que posso dizer, em desenhar pessoas e os seus sentimentos. Desconhecia esta faceta, a paisagem. Talvez tenha sido acidental ou algum momento em que a sensibilidade se deixou aprisionar pelos horizontes. Não sei, e como não sei tenho a liberdade de imaginar e de criar.  A paisagem seduziu-me, talvez pelo amarelo e o vermelho que se escondem atrás de um verde frágil e temeroso. Um verde que não sabe fugir. Por cima o azul é triste e manchado de fumo. Perdeu o brilho. Atrás do escuro, do negro, antevejo a indiferença do divino. O habitual. Nem as chamas do sacrifício do fogo o consegue demover e alertar para a ansiedade da vida.  Assusta. Há qualquer coisa de silencioso, mesmo que se ouça o crepitar raivoso da linguagem do fogo. Não sei por que razão me veio parar às mãos. Não tive intenção. No rescaldo de tão dramática tragédia vou considerá-lo como uma forma de oração, cujo tempo é o meu e cujo altar é de todos.

Versejar...

Versejar, cantar, criticar, confortar, atacar, ajudar, matar, odiar e amar são alguns verbos que, entre muitos outros, exprimem os nossos desejos, forma de ser e de pensar.  Escolho o versejar, talvez o que mais se aproxima do amar, mas para isso é preciso libertar a alma e mostrar a nudez do pensamento.  Há quem faça versos. "É muito fácil fazer versos Se nada temos que dizer, Palavras ocas alinhando, Que pelas rimas soam falso". Mihail Eminescu assim o disse. Não sei fazer versos e muito menos rimar, limito-me a sentir e a desejar. Talvez me deixe ir atrás do encanto de alguma sonoridade. Cantar baixinho para que mais ninguém ouça o quanto gostaria de conjugar, em simultâneo, o verbo esquecer e o verbo amar...

"Touros de fogo"...

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Desconhecia esta prática selvagem e indigna, "Touros de fogo". Teve lugar em Portugal, mais concretamente em Benavente.
Como classificar? Não sei. Nunca pensei que houvesse seres humanos capazes destas iniciativas. Este exemplo é revelador da "essência" da natureza humana.
Miséria. Miseráveis. Cobardes.
Mas quem é que acredita na nossa espécie?