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Mensagens

Mudar

A sofreguidão de mudar persegue-me nos momentos mais inesperados. Faz-me lembrar os soluços. Sem saber a razão sinto a força imperiosa que vinda das entranhas me obriga a respirar de uma forma diferente e que é muito incomodativa. Também soluço, não com lágrimas, mas com o pensamento. Não resisto, não posso, sinto-me impotente para tentar navegar ao sabor do meu desejo. Deixo-me ir pelo impulso do momento. Não sei qual a duração, se um impercetível picossegundo, se um mês, um ano, ou até a própria vida. Não interessa, o que importa é desfraldar as velas, mesmo que estejam rotas, e ir ao sabor do vento do momento. Há muito que aqui não escrevia, neste espaço dedicado a Praxinoa, a escrava de Safo, que sabia mais de liberdade do que todos os deuses e, sobretudo, deusas. É bom. É tão bom poder escrever e ser lido por poucos. Eu sei qual é a razão. É a necessidade de me embebedar às escondidas com a liberdade da emoção e poder sentir a beleza incomparável do mais simples, enigmático e solit…
Mensagens recentes

Convite

Quando recebi o convite para participar na cerimónia engendrei de imediato um conjunto de medidas de forma a não faltar, inclusive abdicar de projetos já desenhados.
Fui de véspera, não fosse o diabo tecê-las. Levantei-me cedo e aprimorei a aparência. O fato, bonito, encantou-me pelo facto de não refilar minimamente às constantes alterações das fronteiras do corpo. Mas também me fez recordar que há momentos solenes que exigem respeito por um protocolo que pode valer o que vale, mas, simbolicamente, é precioso e dá a entender, sem palavras, a importância de um ato.
Assisti como um cidadão normal. Recordei o passado, a mesma data, em anos diferentes, e muitos significados associados ao evento.
O ritualismo é estranho porque fala em voz alta mesmo quando estamos em silêncio. É possível comunicar uns com os outros e criar um espaço em que cada um, com as suas características e idiossincrasias, pode, e deve, contribuir para a identidade comunitária. Sem essa identidade não há criação de valor…

Dor

A sensação de frio leva-me a pensar nos que sofrem um outro tipo de frio, são as almas doentes e esfarrapadas que fogem da vida tristes e desesperadas.
As notícias atingem-me como punhais. É raro o dia que tal não aconteça. São tantas que até parecem fazer parte de um exército empurrado pelas mãos de Deus para o regaço quente do Diabo.
O que leva uma mãe a matar o seu filho e depois a suicidar-se? Pode estar doente e pode sentir-se desesperada por viver num mundo em que a selvajaria humana impera sob capas coloridas de hipocrisia e a solidariedade não é mais do que uma construção momentânea que tranquiliza sobretudo as mentes de muitos que se arvoram em fiéis de princípios, religiões e doutrinas ditas humaníssimas. E agora? Durante alguns dias haverá sempre alguém que comentará o sucedido. É o que estou a fazer neste momento, lamentando tamanha tragédia. Uma notícia dura três dias, sendo sucedida por outra tão violenta e chocante com esta. São tantas, demasiadas, a ponto de saturar os…

São Pancrácio

Fiquei surpreendido ao saber que nalguns bares espanhóis começa a ser usual haver uma imagem de São Pancrácio. Dizem que é para pedir sorte ao jogo. Jogos sociais e jogos de azar estão ligados a uma figura que não tem nada a ver com o jogo. De facto, o pobre Pancrácio, pobre porque o decapitaram por ser cristão, era rico. Herdou uma grande fortuna e enriqueceu ainda mais quando foi para Roma pela mão do seu tio protetor. O imperador Dicocleciano tentou que o jovem abjurasse a sua religião, mas não conseguiu. Além disso também não apreciou muito o facto de andar a distribuir a sua riqueza pelos pobres da cidade. Resultado? Uma cabeça a menos e um santo a mais. Depois o tempo encarregou-se do resto. A lenda cresceu, frutificou, e Pancrácio tornou-se no arauto da sorte. Sorte ao jogo, sorte ao trabalho para quem não tem e sorte na saúde. O santo porta um livro aberto onde se pode ler "Veni ad me et ego dabo vobis omnia bona" (Vinde a mim e eu darei todos os bens). Uma frase bíb…

Física

Não estou arrependido do percurso que fiz ao longo da vida. Mas se me perguntassem agora se gostaria de ter seguido outra via responderia que sim. Qual? Pois bem, adoraria ter sido físico. Nada melhor do que a física para compreender o mundo e o homem. Sempre que posso, e as minhas capacidades o permitem, leio e delicio-me com os pensamentos, especulações e conclusões dos físicos.
Um físico é o mais perfeito dos filósofos, lida com a realidade, com as leis do universo, com o passado, com o futuro e dá significado ao presente sob a forma da mais bela poesia. É difícil encontrar outro campo do conhecimento capaz de tamanhos efeitos. No fundo, não posso dizer que é algo de novo, sempre tive essa impressão desde muito novo, mas fui "empurrado" pela vida e por outros gostos também não desprezíveis e capazes de explicar o homem nas suas múltiplas vertentes, em que a dor e o sofrimento são senhores e reis das nossas pobres existências.
Devoro o que consigo entender e apreender atra…

Citações

Lembro-me de ouvir há muitos anos, na abertura de um simpósio, o discurso de uma autoridade. O senhor era vaidoso e, sobretudo, pretensioso. Não foi difícil fazer o diagnóstico ao fim de algum tempo. Ainda não tinham passado cinco minutos e já tinha bombardeado a audiência com mais de uma dezena de citações. Abri a boca de espanto porque calculei que àquele ritmo iria sofrer a maior saraivada de "eloquência" da minha vida. E assim foi. Nunca vi até hoje algo semelhante. Não fiz grandes comentários nos intervalos, mas mesmo assim larguei uma ou outra frase a testemunhar um certo grau de indignação, recordando um comentário que tinha ouvido há algum tempo, mas sem conseguir citar o autor. Esqueci-me do seu nome, felizmente! Nunca mais larguei uma frase cheia de sabedoria, "a eloquência de um orador é inversamente proporcional ao número de citações". Se houver necessidade de as usar, por motivos de continuidade de um discurso ou realce de um conceito, então, podemos s…

O cantor

O suave ondular das pessoas nas ruas enfeitadas, a confirmar a época festiva, que se arrasta durante alguns dias vestida de frio e de nova esperança, dá vida e consola os que procuram o tempo de paz. Nada melhor do que o sentir do mundo ouvindo cantares dispersos que enchem o ar de flocos de alegria. O velho, descoberto, calva luzidia e indiferente ao frio, retirou de um carrinho de compras um pequeno Pai Natal a pilhas que começou logo a cumprimentar as pessoas que passavam. O pequeno sistema sonoro com altifalante incorporado, que colocou junto à traquitana, e um microfone, denunciavam estar perante um eventual artista de rua. Será? Fiquei cheio de curiosidade. O que é que vai sair daqui? Uma pequena caixa recoberta de papel de embrulho com motivos natalícios ficou ao lado do minúsculo Pai Natal que não se cansava de cumprimentar. Enquanto ia distribuindo o seu material no passeio em frente da loja fechada começou a cantar. A sua  voz, longe de ter sido treinada, com sabor a idade, …