Avançar para o conteúdo principal

Massa do tempo...

Debilitado fisicamente, fiquei na expectativa de poder usufruir um curto momento de reflexão e de tranquilidade à hora do almoço. Não preciso de muito tempo, eu próprio consigo transformar o breve num longo e suave suspiro. Consigo estender o tempo para além do tempo sem dar conta da passagem do tempo. Mistério do tempo. As horas passavam e nunca mais via chegar o momento desejado. À debilidade física associou-se uma espécie de debilidade emocional. Desisti. Hoje não vou ter tempo de ver correr o tempo da maneira que eu gosto, a única em que não sinto o seu peso e tormentos. Em primeiro lugar estão os deveres e as regras mundanas. Fica para a próxima. Cumpri. Eis que me informaram que iria ter tempo livre durante a tarde, muito tempo, tempo demais, inclusive. Sendo assim, vou dar uma volta, não para matar o tempo, não tenho esse instinto, nem esse direito, mas sim para andar, para ver, para encontrar não sei o quê, mas acabo sempre por encontrar qualquer coisa e quando não encontro, encontram-me. Acabei por me encontrar no espaço em que consigo dominar o tempo, dar-lhe um significado diferente, estendendo-o como se tratasse de massa folhada, a recordar o tempo em que passava o tempo a ver a beleza da farinha, da margarina e da água a adquirirem aquela textura na placa de mármore, retirada da mesinha de cabeceira para aquele fim específico. O pensamento transformou-se no rolo da massa e começou a exercitar-se, inicialmente com alguma dificuldade, depois com suavidade até que a massa do tempo começou a desprender-se aceitando quaisquer formas que lhe quisesse dar. Dei-lhe inúmeras formas, recheadas de vida, de suco, de prazer, os únicos recheios que vale a pena utilizar. Saboreei um a um, não com o instinto de matar a fome, apenas pela procura de sensações hedonísticas. O tempo também me fez recordar a altura em que os restos da massa, pequenas tiras, que depois de fritas eram cobertas de açúcar e de canela, me propiciavam o melhor dos prazeres, comer o tempo. Só o tempo é que consegue dar forma e encobrir belos e deliciosos recheios. Se não fosse a massa do tempo como daria forma a tais sensações? E eu que não sabia que em pequeno cheguei a comer pequenas tiras de tempo, fritas, com açúcar e canela. O tempo nunca se importou com isso...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...