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Cinzas da vida


A tirania do tempo é uma constante a que ninguém consegue fugir, quer que o contemos em segundos, em anos, no seio da própria eternidade ou no silêncio da morte. Marcamos tudo e todos em sua função, vivemos, amamos, sofremos e descansamos com ele. Talvez seja por isso que damos tanta importância aos aniversários, quaisquer que sejam, como se terminasse um ciclo e se iniciasse outro. Uma monotonia cíclica que nos permite reviver o passado, dar algum significado ao presente e desejar que tenhamos futuro. 
Fazer anos é uma forma de ajoelhar perante o deus Chronos, mesmo para os que não gostam de prestar culto a quem quer que seja. Eu ajoelho-me e recordo que, pela primeira vez, comemoro um aniversário sem a presença da minha mãe. Esvoaço rapidamente pelo passado e inundo-me de imagens, sons, cheiros, sol, frio, chuva, doenças, sabores, carícias, presentes e muita ternura numa estranha amálgama em que os diferentes momentos se confundem, convergindo todos para o mesmo ponto, a comemoração de ter vindo ao mundo, em que ela esteve sempre presente. Hoje não está. Mesmo recentemente, com muita dificuldade, ia recordando esse momento, à custa de a lembrar que “para a semana vou fazer anos, não te esqueças”, “não, não me esqueço”, claro que se esquecia, como aconteceu uma vez em que a memória, que entretanto se ia encolhendo nas sombras do esquecimento, a traiu de forma dolorosa. Dolorosa, porque passado o dia disse-lhe, “então, não foste capaz de me dares os parabéns pelos meus anos?” Mesmo para quem andava já arredado da realidade foi duro, muito doloroso, porque, muitas vezes, quando me via, pedia desculpa por essa falta. Foi só quando se aproximou o aniversário seguinte é que as coisas começaram a melhorar, ia avisando-a, e, no dia aprazado para comemorar as dores de felicidade, telefonei-lhe para que me desse os parabéns. Assim, a partir daí, nunca mais se "esqueceu", porque gostava de se lembrar, uma mãe gosta de repetir em pensamento o que só ela sabe, mais ninguém, um atributo único, ver e sentir a vida sair dentro de si. 
Hoje não lhe posso recordar esse momento, mas sei que gostaria de se "lembrar" e sei que exultaria a dar-me os parabéns, por isso escrevo com esta mão, mão que foi acariciada, conduzida no desenhar das primeira letras, que sofreu castigos, que foi a sua ajuda, que lhe retribuiu todo o amor, que se entrelaçou com a sua no momento da morte, estas parcas palavras que me saem como lágrimas, lágrimas que sabem a dor, a prazer e a amor. 
Como as almas não leem textos escritos, e desejoso de que possa ler estas palavras, vou queimar o papel libertando as cinzas ao vento. Só o pó das almas pode ler as cinzas da vida.

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