Avançar para o conteúdo principal

Inocentes


Gosto de ler um bom livro. Gosto de conhecer um novo autor. Gosto de me isolar e deixar levar na onda de uma deliciosa narrativa. Gosto de esquecer que existo ao embrenhar-me em páginas de dor, de alegria, de tristeza ou na intimidade de personagens criadas, reais, fictícias, não interessa, elas existem mesmo, seja na vida real, seja na imaginação ou no estranho purgatório da existência, com um pé neste mundo e a alma no outro. Gosto. Nem sempre consigo encontrar uma fonte de leitura que jorre desde a primeira à última página lágrimas de prazer ou gotas de sedução que, ao invés de matar a fome, sabe criar desejos e despertar a sede de novas emoções. Quando tal acontece sinto um efeito equivalente ao estado de semi embriaguez, fica-se consciente e livre para voar entre as nuvens da felicidade ou afundar sob o sol da inquietação. Foi o que aconteceu com um pequeno livro de um escritor espanhol, Ramón J. Sender, "Requiem por um camponês espanhol". Adquiri-o numa daquelas feiras em que se pretende eliminar velhos volumes. Desconhecia Sender. Na contracapa, com base no prefácio, li que se tratava de uma obra-prima da literatura em língua castelhana. Desconfio sempre dos "elogios" nas badanas e nas contracapas, mas ao abrir o livro e depois de ler algumas passagens senti um forte estremeção. Tratava-se de uma novela ocorrida durante a guerra civil espanhola, sem qualquer menção à mesma, apenas o relato de uma criança batizada pelo padre e que o acolitou em criança. Mais tarde, monsenhor Millán casou-o, e depois denunciou-o, denúncia que levou ao seu fuzilamento pelos meninos bens. O padre assistiu à descarga criminosa e deu-lhe a extrema-unção. Passado um ano, no requiem, ninguém apareceu, nem amigos, nem os familiares, apenas as três figuras mais importantes da aldeia, os inimigos do fuzilado.
De todas as passagens, há uma que faz estremecer qualquer um, mesmo o mais cristão, quando Paco, assim se chamava o jovem, agarrando-se à sotaina de monsenhor Millán, repetia incessantemente; "Não fizeram nada e vão matá-los. Não fizeram nada". Paco intercedia não por si, mas pelos outros dois pobres diabos que o acompanhavam na desdita. A resposta é de uma crueldade inqualificável: "- Às vezes, meu filho, Deus permite que morra um inocente. Permiti-o ao seu próprio Filho, que era mais inocente que vós os três". Paco ficou sem fala.
Todos os dias são mortos inocentes por esse mundo fora, à custa ou em nome de ideias absurdas fruto da mente humana, muitas vezes inspiradas em deus ou justificadas em seu nome. Não faltam monsenhores Millán em todos os locais e em todas as religiões.
Muitos morrem antes do seu tempo, apenas porque são inocentes.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

Nossa Senhora da Tosse

Acabei de almoçar e pensei dar a tradicional volta. Hoje tem de ser mais pequena para compensar a do dia anterior. Destino? Não tracei. O habitual. O melhor destino é quando se anda à deriva falando ao mesmo tempo. Quanto mais interessante for a conversa menos hipótese se tem de desenhar qualquer mapa. Andei por locais mais do que conhecidos e deixei-me embalar por cortadas inesperadas. Para quê? Para esbarrar em coisas desconhecidas. O que é que eu faço com coisas novas e inesperadas? Embebedo-me. Inspiro o ar, a informação, a descoberta, a emoção, tudo o que conseguir ver, ouvir, sentir e especular. Depois fico com interessantes pontos de partida para pensar, falar e criar. Uma espécie de arqueologia ambulatória em que o destino é senhor de tudo, até do meu pensar. Andámos e falámos. Passámos por locais mais do que conhecidos; velhas casas, cada vez mais decrépitas, rochas adormecidas desde o tempo de Adão e Eva, rios enxutos devido à seca e almas vivas espelhadas nos camp...

Guerra da Flandres...

Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. Exmas autoridades. Caros concidadãos e concidadãs. Hoje, Dia de Portugal, vou usar da palavra na dupla qualidade de cidadão e de Presidente da Assembleia Municipal. Palavra. A palavra está associada ao nascer do homem, a palavra vive com o homem, mas a palavra não morre com o homem. A palavra, na sua expressão oral, escrita ou no silêncio do pensamento, representa aquilo que interpreto como sendo a verdadeira essência da alma. A alma existe graças à palavra. A palavra é o seu corpo, é a forma que encontro para lhe dar vida. Hoje, vou utilizá-la para ressuscitar no nosso ideário corpos violentados pela guerra, buscando-os a um passado um pouco longínquo, trazendo-os à nossa presença para que possam conviver connosco, partilhando ideias, valores, dores, sofrimentos e, também, alegrias nunca vividas. Quando somos pequenos vamos lentamente percebendo o sentido das palavras, umas vezes é fácil, mas outr...