Avançar para o conteúdo principal

Cansaço de viver

Há momentos em que sinto o despertar de um velho impulso que há muito me persegue, embora se esconda durante longos períodos de tempo nas profundezas de um cérebro cansado e desejoso de paz. Atormenta-me esse impulso que me convida a não despertar, a não sentir, a não ver, a não amar, a não ser nada, apenas esquecer e ser esquecido. Desperta de tempos a tempos e causa-me estranhas sensações e emoções. É uma sensação acutilante, fria, dolorosa e silenciosa que quer beber o sumo da minha alma. Não a entendo. Não a desejo. Só sei que me invade de uma forma que não consigo compreender. Abandono-me nas mãos do tempo e na ternura da solidão. Dói, mas não sinto a dor. Atormenta, mas não vejo como escapar-lhe. Só sei que me convida ao vazio. Não sei o que dizer. O meu desejo é não sentir nada, mas mesmo nada, nem dor, nem paz, nem sombra, nem calor, nada, apenas queria esvaziar os meus sentidos e apagar de vez a escuridão deste estranho mundo.
Não quero falar, não quero escrever, não quero ouvir, não quero que me recordem, não quero nada.
Não quero escrever e escrevo! Para quê? Para quem? Para nada e para ninguém. Escrevo apenas para mim, não me apetece partilhar o que escrevo, nem hoje nem nunca. Não vale a pena escrever mesmo que o faça. Não passa de uma pobre imagem sem importância. Eu também não passo de uma pobre imagem sem importância. Eu e o que escrevo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Tique preconceituoso". Um contributo

Também "sei" fazer análises sobre a situação do país, pelo menos tento fazer com alguma imparcialidade e sem preconceitos. Tento fazer, mas confesso que é difícil, quase que diria é impossível. Nenhum cidadão se pode considerar impoluto e imparcial na análise de quem quer que seja ou na interpretação de inúmeros factos e situações. Tudo bem. E depois? Depois irrita-me muitos comentários e análises que refletem uma mistura dos factos que nos circundam e das personalidades de quem os analisa. Há quem impregne mais com o suor da sua personalidade - e suor é coisa que não cheira bem -, e há quem impregne menos. Relativamente a questões de vencimentos, reformas e coisas parecidas com ganhos justos ou injustos por parte dos políticos e altos dirigentes, é possível observar um movimento de contestação e de repúdio dos mesmos por parte de grande parte da população. Aparentemente compreende-se, os que contestam ganham pouco ou, até, nem ganham nada. Como travar esta contestação? Não s...

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.