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"Escadaria de almas"

Sábado. Manhã de sol de uma primavera serôdia. Movimento pouco usual na praça. Cavaletes, pintores, batas sujas, cada um para seu lado. Depressa apreendi estar perante uma sessão de pintura ao ar livre. Há mais gente? Sim. Andam dispersos por aí. Vasculhei alguns quadros em que pinturas embrionárias denunciavam os novos seres, para o efeito bastava projetá-las nos espaços envolventes. Quando terminam? Lá para o fim da tarde estão prontos para serem expostos. Não foi difícil adivinhar que cada artista tinha escolhido as melhores e, também, as mais previsíveis paisagens.

À hora aprazada fui ver o resultado. Alguns mais elaborados, outros menos, mas de qualquer modo demonstrativos de um esforço artístico. Houve entretanto um quadro que me atraiu de imediato, pela técnica, pelo calor e pela forma de abordar a paisagem envolvente. Não sendo da terra, era a primeira vez que a visitava, conseguiu fugir ao apelo dos espaços mais atraentes e fixou-se em pormenores laterais. Precisamente a parte lateral da igreja, focando a escadaria de acesso à mesma, e algum arvoredo, que outrora foi muito mais rico e diversificado. Não a abordou de frente e se o fizesse decerto surpreenderia qualquer um, porque a frontaria é de uma elegância única espraiando-se até infinito, oferecendo os seus olhos e corpo aos raios solares que no final da tarde devem sentir um prazer único em a acariciar. E mesmo nos dias em que não acordem, a sua beleza emana raios de felicidade, retribuindo calor, como se fossem cartas de amor ao deus sol, ou à deusa lua, ou a quaisquer almas que nas trevas da noite necessitam de algum calor. Mas não, fixou-se na lateralidade do templo.

Estranho. Por que razão terá focado aquele ângulo, questionei-me. Poderia ter-lhe perguntado, mas já se tinha ido embora. Veio cedo, deixou-se impregnar por algo que lhe chamou a atenção e, ao fim de algumas horas, a gestação estava concluída, parindo um quadro que não deixo de mirar todas as semanas.

Gosto do jogo de sombras, da luminosidade, da frescura da verdura, das cores das folhas dos arbustos, mas sobretudo do pormenor da escadaria. Ao longo dos séculos foram calcadas por inúmeras almas, vivas e mortas, muitas subiram com alegria e emoção no coração, outras com desconforto, ansiedade e tristeza, mas houve, também, quem as descesse com lágrimas de dor no rosto ou com pérolas de alegria nos olhos.

Os episódios que testemunhei ao subir e ao descer aquelas escadarias, corroídas pelo tempo, pela dor e pela raiva, mas também perfumadas pela alegria, pela esperança e pelo amor, emergem como magia sempre que olho para o quadro, muito mais realista. Se o pintor tivesse pintado a igreja de frente ficaria seduzido pela sua beleza e estética, esquecendo o significado de algo que representa a alma coletiva de uma comunidade.

O pintor não se deixou seduzir pelos belos recantos da localidade, atreveu-se a capturar almas, muitas almas, perdidas e achadas.

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