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Fio invisível

Quem não consegue ver ou sentir a presença do corpo de um amado não consegue ter paz. Quanto à alma do defunto não sei se sentirá o mesmo, pode ser que sim. Mais do que dar descanso aos mortos o que é preciso é aliviar a ansiedade dos vivos, cortando-lhes a invisível fita que os prendem às almas que estrebucham no seu pensamento pelo desejo de liberdade, e só vendo os corpos é que conseguem alcançar a tranquilidade. O luto é isso mesmo, o corte do fio dos sentimentos que prende os vivos aos seus mortos. São inúmeros os casos em que tal situação não ocorreu, porque não se sabe se o amado está vivo ou morto, ou, neste último caso, onde pairará. Mas há quem deseje dificultar esse corte, como aconteceu com o caso da pesquisa de corpos de uma tripulação inglesa que, no regresso de um bombardeamento a unidades de guerra alemãs, foi abatido sobre o território inimigo. Houve uma testemunha que viu tombar o Lancaster. Agora, passados quase setenta anos, a testemunha ocular ajudou "caçadores" de corpos a encontrá-los, graças às novas tecnologias. Tinham sido declarados como mortos no mar, mas, afinal, estavam em território alemão. Os habitantes da zona não acharam bem que andassem a fazer escavações para resgatar os que há tantos anos andaram a bombardear as suas cidades, comportamento não partilhado pelos jovens investigadores, para eles, tanto lhes faz serem alemães ou ingleses, eram jovens que deram a vida pela sua pátria e que merecem o máximo  respeito. Um duplo comportamento, os mais velhos, ainda com importantes resquícios dolorosos a atormentar-lhes as memórias, a relembrar velhos ódios, apesar de estarmos no mesmo continente, e com a mesma moeda, e os mais novos, com visão mais abrangente e solidários com os mortos e seus familiares, independentemente das nacionalidades, aspeto que merece ser realçado. Afinal, uma nova esperança a querer apagar velhos registos que, teimosamente, ainda ocorrem no velho continente, sinal de que não estão saradas velhas feridas. A Europa está cheia de feridas. É preciso mais de um século para as minimizar de forma acentuada, e estão sempre prontas a reavivar a qualquer momento. A Europa é um retalho de nações e povos com características muito diversas e uma história cheia de conflitos e de sangue. Todos os esforços no sentido de criar uma "nação" europeia estão, em princípio, condenados ao insucesso. Ninguém quer perder a sua autonomia e influência. Não se pode construir nada com tijolos e pedras de diferentes tamanhos, embora os mais jovens já consigam subtrair-se a parte dos velhos ódios, enquanto outros não os substituam. 
A Europa nunca conseguirá ser uma "nação", apenas uma manta de retalhos sempre pronta a lutar contra o destino dos homens.
No meio de toda esta história, velha da segunda grande guerra, destaca-se o facto da filha de um deles acabar de saber onde pairava o pai, perdido para as bandas de Frankfurt. Era muito pequena na altura, talvez por isso nunca tenha sentido necessidade de cortar o fio dourado que une os vivos aos mortos. O mesmo não deverá ter acontecido à sua tia, que, ao conhecer o paradeiro do irmão, sentiu a sua alma libertar-se. Satisfeita, agradeceu aos descendentes de velhos "inimigos" por lhe terem recuperado o corpo do irmão, que agora irá repousar em paz, e ela também.

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