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"Pietà"


Há muitos anos que me dedico a adquirir, sempre que posso, imagens de santos. Cá em casa, em tempos, perguntavam invariavelmente, sempre que me viam regressar de alguma excursão de tempos livres, com algo embrulhado em jornais ou em papel costaneira debaixo do braço, qual é o mutilado que trazes hoje. Tinham razão, raramente trazia algum completo, mas não me importava e nem me importo. Nunca ninguém me perguntou qual a razão desta apetência, mas eu respondo. Inicialmente também não percebia a razão, mas com o tempo fui compreendendo, acho eu. Além do sentido estético transmitido pelas imagens, sinto que os autores iam mais longe, impregnando-as de uma espiritualidade única. A beleza, a espiritualidade, as inúmeras mensagens simbólicas que emanam e o anonimato do criador transformam uma imagem num verdadeiro e tranquilizador livro à espera de ser lido. Eu gosto de ler, sejam palavras, sejam imagens, sejam símbolos, seja o que for. Nem vale a pena descrever as diferentes imagens que possuo, identifico-as todas, sei onde as adquiri, sei quem me as ofereceu e sei sobretudo quais as "leituras" que propiciaram e propiciam sempre que as toco e as vejo. Sim, porque de quando em vez descubro novas leituras. Um prazer que não se esgota em imagens de santos, mas também ocorre com imagens e estatuária "profana".
Não tenho uma "Pietà". Gostava imenso de adquirir uma. Não é que já não as tenha visto, mas não vi ainda a "minha". A última vez que vi uma estava no pequeno altar de uma capela, próxima da minha casa, onde nunca tinha entrado. É estranho? É, porque todas as semanas passo a seu lado. Conheço o seu nome e sei de onde foi transferida. É tão presente mas nunca a vi por dentro. Daquela vez tive que entrar, porque, transitoriamente, a urna teve de esperar naquele lugar para poder ir para a casa mortuária que estava ocupada. A morte também começa a sofrer de filas de espera. Que belo espaço, pensei. Estava sozinho, apenas acompanhado de uma alma que vi partir. A imagem, no pequeno e cuidado altar, impressionou-me, bela e tosca, transmitia uma sensação única, relembrando a dor de quem partiu, talvez a maior dor que um ser humano pode sentir, quando uma mãe perde o filho. Claro que naquele caso é um filho diferente. Não sei se é, mas filho é de certeza. Foi a minha companhia durante algum tempo. Uma "Pietà" muito doce que transmitia uma estranha tranquilidade, feita não sei por quem, e muito longe da perfeição da parida pelo genial Miguel Ângelo, a mais famosa de todas, esculpida em mármore de seda. O toscano também desenhou uma outra, que ofereceu a Vittoria Collonna, mulher virtuosa, filantropa, poetisa, no fundo, a sua amada a quem nunca declarou os seus sentimentos, mas que beijou freneticamente as mãos na morte. Nesse pequeno desenho, forte e libertador, Dante escreveu um verso da Divina Comédia, "non vi se pensa quanto sangue costa", qualquer coisa como "não sabem ou não pensam quanto custa o sangue". Em certos momentos da vida, muitos continuam na sua azáfama, desconhecendo e ignorando quanto "custa o sangue" a alguns. É natural, faz parte da vida, são momentos únicos, que, como tal, têm de ser vividos por quem tem de receber no seu regato a alma dos que partem. Olhei para a belíssima, tosca e tranquilizadora imagem que me "obrigou" a receber nas mãos a alma de quem partiu, numa estranha, irrealista e curiosa forma de "Pietà". Ninguém viu, e o "no vi se pensa quanto sangue costa" transformou-se em "não pensei que custasse tanto"...
Tenho que encontrar a minha "Pietà".

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