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Engano


- Está? É da casa do senhor Joaquim Flores?
- Não, minha senhora, aqui não vive nenhum senhor Flores.
- Oh, desculpe, foi engano.
- Não há problema.
- Muito obrigada e um bom dia.
- Igualmente para a senhora.
Um engano qualquer um pode ter. Neste caso foi prontamente assumido, porque era evidente e inócuo.
Mas há enganos e enganos. Uns são simples, banais, fazem parte do dia-a-dia, mas mesmo assim podem complicar a vida. Mas há outros que são frutos de maus juízos, de preconceitos, de falta de visão, de uma teimosia intrínseca, revelando-se dolorosos e injustos para terceiros. Quando um erro desta natureza não é assumido, então, é uma situação grave, mas há, ainda, situações mais complexas quando é utilizado com propósitos bem definidos.
Há quem não admita os seus erros, porque são considerados como sinais de fraqueza, de insucesso ou de inferioridade. É mau, já que podem estar na origem de condutas fabricadas, artificiais, falsas, incómodas, daninhas, as quais são capazes de estragos subsequentes ao criar uma complexa teia ou rede de explicações estapafúrdias e perigosas. Há, no entanto, quem "confesse" os seus erros, uns, de forma teatral, e bem construída, para minimizar alguns impactos que lhes podem ser nefastos, ou mesmos fatais, em termos sociais ou políticos, embora, nos seus íntimos, saibam que é um mero disfarce, o que interessa é salvar as aparências, outros não, conseguem ser sinceros, vislumbrando-se o incómodo produzido, mas, habitualmente, não são perdoados.
Enganar é a estratégia mais frequentemente utilizada pelo homem para alcançar os seus objetivos.
Lembro-me de ouvir em pequeno que "meio mundo andava a enganar o outro". Ouvi e perguntei: - E tu, pertences a qual? - A minha avó cruzou os braços, baixou a cabeça e ficou a olhar para o fogo da lareira. Não respondeu! Eu sabia a resposta, mas fiquei incomodado por saber que alguém, ao dizer o que tinha acabado de dizer, soubesse que pertencia aos enganados e não resolvia o problema. Se ela com aquela idade andava a ser enganada, então o que é que iria acontecer-me? Com o tempo comecei a dar atenção, muita atenção a estes aspetos e, realmente, o engano está por todo o lado. 
"Fui levado ao engano". Uma expressão muito comum; já a ouvi em muitas circunstâncias e também já a pronunciei. É o melhor adubo para fazer crescer e desenvolver técnicas e cursos nestas matérias, utilizando designações mais ou menos sonoras ou atraentes, originando uma subespécie de "enganadores" profissionais ao serviço de bancos, seguros, companhias de telecomunicações, das indústrias alimentares, da venda de inúmeros produtos miraculosos, até ao serviço de religiões, que prometem belos e encantadores futuros no além, a troco sabe-se lá de quê! Mas não fica por aqui, a política também é um bom campo para quem tenha queda para sobreviver enganando os outros. Dentro do grupo de pessoas que sabem que estão a ser enganadas, há muitos que não se importam, pelo contrário, até devem gostar, sim, porque há os que se sentem bem quando lhe trocam as voltas. Há gostos para tudo.
Um engano pode acontecer a qualquer um, mas enganar, propositadamente, para tirar proveito, constitui a forma mais clássica e certa de ganhar dinheiro, estatuto e poder. Não há volta a dar-lhe. De vez em quando há denúncias, reflexões a propósito, cria-se legislação apropriada, definem-se normas de conduta ética e publicitária com o objetivo de evitar tamanho descalabro. Sempre entretêm os incautos e enriquecem os profissionais.
Ao falar do "engano", e da minha tentativa em evitar ser enganado, sem passar para o outro grupo, concluo que também já enganei. Não vou confessar os meus enganos, partilhados por outros, só espero que não tenha prejudicado muitas pessoas. Muitos doentes querem que os engane, e eu engano-os, indo de encontro ao seu desejo, embora fique algumas vezes na dúvida. Mas os familiares ficam a conhecer a verdadeira situação, talvez daí a expressão que utilizam, quando falam de alguém querido muito doente, "foi desenganado pelos médicos".
De engano em engano vamos sobrevivendo, até que um dia, a morte, a depuradora de todos os enganos, faz a sua entrada. A única que é imune ao engano, e mesmo que consigamos adiá-la, "enganando-a" com todos os meios ao nosso alcance, ela ri-se, porque tem uma paciência única, sabe qual é o resultado final.

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