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"O tambor"

- Que dia é hoje? Vinte e sete de abril?
- Não! Vinte e oito.
- Ah, pois é. Faz hoje anos que o teu pai foi hospitalizado, morrendo três dias depois. Foi há vinte anos, não foi?
- Vinte? Não! Tanto tempo!
- Olha, se não foi há vinte, não deve faltar muito.
- Amanhã vejo na campa o ano.
- Deixa lá, que eu vou já saber.
- Como?
- É fácil. Foi no final do Portugal-Escócia, em que nós ganhámos por cinco a zero, que a situação se agravou e eu chamei a ambulância. Olha, foi em 1993.
- Como o tempo passa!
- Neste dia o Salazar fazia anos.
- Fazia?
- Sim.
- Como é que sabes?
- É fácil. Na escola primária, no Vimieiro, obrigavam-nos a vestir a farda dos "lusitos" e, em marcha, a toque do tambor, íamos até à igreja de Santa Cruz para assistirmos à missa pelo "senhor presidente", que fazia anos. Uma chatice.
- Mas qual chatice? Ir à missa?
- Também. Nunca percebi porque é que tinha de ir à missa por causa do aniversário de uma pessoa. Lembro-me de ter perguntado à senhora que tomava conta do refeitório e que nos torturava periodicamente com o óleo de fígado de bacalhau, baixa, gorda e forte que nem um touro bravo, porque razão eu tinha de ir à missa fardado. Era vê-la. Ofendida, lançou-me um olhar como quem diz, deixa lá que para a próxima vez enfio-te com três colheres seguidas pelas goelas, dizendo, ao mesmo tempo, que eu devia ter mais respeito pelo senhor presidente e que levaria uma estalada se continuasse com a conversa. Não te esqueças de rezar pelo senhor. Pede a Nosso Senhor Jesus Cristo para que lhe dê saúde e muitos anos de vida. Está bem, disse-lhe. Era o que mais faltava, pensei eu, até porque lá em casa, e na do meu avô, os comentários que ouvia a seu propósito não se coadunavam com rezas ou pedidos a Deus.
- E rezavas?
- Por ele?
- Sim.
- Não. Já te disse que era o que mais faltava. Uma seca. Tive que me ajoelhar porque era obrigado, mas nem um Pai-Nosso!
- Mas a chatice era só ir à missa?
- Não. O que eu queria era mesmo tocar o tambor, mas o professor escolhia sempre outro.
- Nunca chegaste a tocar? Cheguei, sim senhora. Uma das vezes, penso que estava na terceira classe, fui encarregado de tocar o bombo. O dia estava muito frio, o sol não aquecia. Dessa vez, fomos, depois da missa, pelo Rojão Grande, dando uma grande volta, ao contrário do habitual. Fartei-me de tocar bombo.
- Saíste-me um grande fraldiqueiro!
- Porquê? Por causa do bombo? O que eu queria era manter aquele toque, e olha que não falhei. Gostava de tocar o bombo porque fazia-me sentir importante, imitando os meninos na guerra que, à frente dos soldados, ribombava-os, marcando o compasso para a luta que se avizinhava. Tinha visto um filme com esse quadro, homens armados com baionetas em riste precedidos pelos meninos dos tambores, marcando o ritmo do combate. Também li algumas bandas desenhadas. Recordo-me do herói francês, cujo nome consegui reter com muita facilidade, Lafayette, que, na guerra da independência da América, se acompanhava do menino do tambor. Que é que tu queres?
- Mas, confessa lá, sempre rezaste um Pai-Nosso pelo Salazar, não rezaste?
- Não! Então a governanta da escola enfiou-te com umas valentes colheradas de óleo de fígado de bacalhau, não foi?
- Qual quê! Ela, de facto, perguntou-me se tinha rezado pelo Salazar. Eu disse que sim, mas menti. Agora posso dizer que foi uma questão de "desobediência religiosa". Então eu ia rezar por alguém de quem ouvia dizer tanto mal e que, ainda por cima, tinha direito a missa no dia do seu aniversário e eu não? Olha, foi mais uma acha a somar a outras. A única coisa que valia a pena era ter uma tarde livre para a brincadeira, não ter de aturar o bruto do professor, e ainda consegui tocar o tambor, fingindo que ia para a guerra. E a guerra apareceu mais tarde...

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