Avançar para o conteúdo principal

Matança de crianças


 

Sou frequentemente assaltado não pela dúvida mas pelo desespero face a acontecimentos que não consigo entender, sobretudo se as vítimas não têm qualquer responsabilidade ou participação. Sou frequentemente assaltado pela tristeza e até incompreensão face ao sofrimento atroz que atinge muitas pessoas, sobretudo os mais pequenos, inocentes vilipendiados perante uma natureza indiferente ao homem, embora não a possa considerar como cruel. A crueldade é própria apenas de alguns humanos quando cometem crimes hediondos, como foi o caso de mais uma matança de crianças. Não é a primeira vez que tal acontece, outras já ocorreram e muitas mais irão acontecer no futuro, testemunhando a perversidade da natureza humana praticamente imune a todos os códigos de conduta e princípios religiosos. Assalta-me a angústia dos que pretendem justificar tamanhos e criminosos atos, de que deus não tem nada a ver com isto. Argumentam que o homem é dotado de livre arbítrio e como tal o único responsável pelos seus atos. Uma opinião que não é mais do que uma tentativa para desresponsabilizar o divino quando perguntamos como foi possível que o criador deixasse que tal acontecesse.
A matança das crianças ocorreu no mesmo dia em que fui assistir à festinha de natal de um neto. Pais, avós, irmãos, amigos e muitos familiares comungaram durante algum tempo, absorvendo uma alegria suave, prazenteira e acolhedora junto dos pequeninos. Soube-me bem e preencheu aquela lacuna existencial que constantemente me assalta de dia para dia. Depois da festa soube que tinha ocorrido uma matança de crianças. Mais uma loucura. A mente de alguns humanos é muito estranha. A nossa espécie mata em nome de tudo inclusive da loucura e da maldade.
Fala-se tanto de milagres, fala-se tanto de d(D)eus e e(E)le esquece-se da sua criação, deixando que crianças sucumbem às mãos de um louco. A resposta é sempre a mesma: "são insondáveis os desígnios de deus"! Considero estar perante uma resposta perversa e cruel.
Invoca-se a divindade a torto e a direito e, no entanto, surgem acontecimentos desta natureza que afligem qualquer um de nós. Olho e encontro uma vazio inexplicável, indiferente às aspirações, desejos e ambições de uma espécie consciente, frágil, inconstante, arrogante, humilde, amorosa e perversa ao mesmo tempo.
O divino pode servir para muitos, mas não chega para mudar e ajudar a humanidade, a indiferença é tão visível, tão dolorosa, tão palpável que só me resta gritar-lhe, mas não vale a pena, somos frutos de um acaso que se transformou em necessidade. É com base nesta última que iremos continuar, tentando projetar alguma espiritualidade, criatividade e beleza para quem sempre manifestou indiferença. À falta de amor divino devemos oferecer a poesia dos seres humanos, dos que ainda sabem construir e adorar a vida, umas vezes com alegria e outras com sofrimento.
Que mais posso dar? Apenas um pensamento para as crianças e um abraço para os pais. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...