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Embaixador de Israel



De acordo com o que me foi dado ler, o embaixador de Israel em Lisboa foi muito duro numa conferência realizada em Lisboa, afirmando que fomos "o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias" pela morte de Hitler, uma nódoa que os judeus associam a Portugal. Quando li o título, "Embaixador de Israel diz que Portugal tem "uma nódoa" que os judeus não esquecem", pensei que estaria a referir-se ao Pogrom de Lisboa de 1506, mas não, o que os judeus não esquecem foi o "luto" de três dias determinado por Salazar. Quanto à matança de Lisboa, às tantas deve ser coisa "menor" que os judeus já se esqueceram ou não sabem, pelo menos a grande maioria. Na minha opinião, as palavras do embaixador são uma ofensa ao povo português, porque não pode ser responsabilizado pela decisão de um governante. Além do mais, o senhor embaixador deve desconhecer - não obviamente o papel dos dois "justos" portugueses -, inúmeros e anónimos portugueses que ajudaram muitos judeus. Conheço e ouvi muitas histórias de ajuda prestadas pelos nossos compatriotas a judeus, o que não é de admirar, atendendo à nossa eterna vocação para manifestações de solidariedade com os mais desfavorecidos e perseguidos. Se juntarmos a tudo isto muito sangue judaico que corre mais ou menos diluído nas nossas veias, então, devemos ficar ofendidos ou pelo menos perplexos com tamanha arrogância étnica.
Caro senhor embaixador de Israel, há um ditado em português que diz o seguinte: "no melhor pano pode cair uma nódoa". Sendo assim, gostaria que me mostrasse o "pano" judeu, branco, puro, sem mácula. Não o encontra? Pois não, não pode encontrá-lo. Sabe senhor embaixador, o senhor pode representar o governo de Israel, mas não o povo judeu e os povos acabam, com o tempo, por recordar as belas recordações. Apesar das atrocidades cometidas contra os judeus, mesmo pelos portugueses dos quinhentos, há recordações que não desaparecem. No seu país, alguns dos seus compatriotas ainda guardam centenárias chaves das suas casas portuguesas. Sefarditas que não esquecem as suas origens e que ainda rezam em ladino. E quer reviver o episódio da bandeira nacional colocada a meia haste por Salazar? Para quê? Para nada.
Hoje, o senhor obriga-me a mostrar o meu descontentamento. Faço-o relembrando que os meus antepassados foram marranos, como, provavelmente, uma parte significativa deste povo, que tem muitos defeitos, mas a solidariedade e a generosidade são algumas das suas principais virtudes e estão sempre içadas nos nossos mastros em honra de judeus, de palestinianos ou de qualquer outro povo.

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