Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

"Fantasia"...

Preciso de criar espaços de fantasia. Preciso de subir aos montes da vida. Preciso de saborear a tranquilidade de um silêncio que me recorde o absoluto. Preciso de viver uma vida que não existe. Preciso de inventar fantasias de vida. Preciso de encontrar o que nunca encontrei. Preciso de fugir de tudo o que me rodeia e que não me alegra. Preciso de respirar a tristeza pura do espaço pintado de penumbra. Preciso de espaço, preciso de roubar ao tempo pequenas fatias de minutos, minutos que ele não precisa, mas sem os quais não consigo equilibrar-me entre o mundo real e o mundo da minha fantasia. O mundo real até parece que precisa de mim, rouba-me, mas não me cativa, atormenta-me, mas não me recompensa, obriga-me a fugir como se fosse uma criança para o mundo da fantasia e eu fujo assim que posso. Eu sei que o mundo da fantasia existe. Eu sei onde está, em locais simples, onde a paz está à minha espera, onde a beleza se enerva com a minha falta, onde a reconstrução do mundo espera que l...

"Nossa Senhora do Pranto"...

Saí de casa e fui procurar um espaço. Procuro espaços para poder ter o meu espaço. Hoje, o meu espaço é um espaço aberto, cheio de vento suave que foi encarregado de cuidar das folhas do parque. Tremem, e algumas esvoaçam para a liberdade da morte; estão felizes e não se arrependem de ter vivido. Ouço-as e vejo-as por todo o lado. Cantam. O seu cantar é doce, acalma e seduz. O vento consegue criar uma musicalidade única com o contributo das velhas árvores. Pequenos insetos, curiosos, sentam-se em cima de mim espantados com a minha presença. Afasto-os. Não quero perturbar o seu espaço. O espaço está cheio de vida e deserto de almas humanas. Gosto de sentir os efeitos de espaços vazios e cheios de lembranças. Olho para a capela e recordo que existe no seu interior uma bela Pietà. Olho para a capela e recordo outros momentos em que estive sozinho acompanhado da Pietà e de uma alma recém-libertada. Olho para a capela e recordo os sons das ramagens, a sua música e as suas cores como se fo...

"Sábado"...

Um sábado diferente, diferente porque não quero recordar outros. Um sábado indiferente, indiferente à minha presença, indiferente às minhas preocupações. Um sábado sem sabor, um sábado sem amor, apenas mais um sábado, um sábado que desperta algum temor. Um sábado não muito quente, um sábado sem ver gente, apenas um sábado a recordar que não passo de um descrente. Um sábado diferente. O sábado não mente, hoje é um sábado indiferente que ignora quem sente. Oh sábado, mais valia ser demente. Santa Comba Dão, sábado, 14.09.2013

"Trancoso"...

Tive que ir a Trancoso. O meu amigo não sabia que naquela vila histórica tinha vivido o famoso Bandarra, sapateiro e autor de profecias que fazem ainda hoje as delícias de qualquer um. Um notável que merece ser emparelhado ao lado dos melhores. Depois de termos chegado, fui à vida, cumprindo o que estava destinado. Ficou à espera, acabando por esperar mais do que o previsto. Quando entrei no automóvel vi que estava a ler. Disse-me que tinha dado uma volta. Não imaginava ver uma preciosidade que desconhecia.  Portugal tem muitos e maravilhosos tesouros que me enchem de alegria, de satisfação e de orgulho. Tomara ter tempo para viver e andar por todas essas terras, embrenhando-me nas suas ruas e convivendo com as gentes. Foi então que apontou, com muita satisfação, o livro, "As profecias do Bandarra". Tinha acabado de o comprar. - Comprei-o por causa da nossa conversa de há pouco. - Fez muito bem. - Mas espere, também acabei por comprar este, era o último. Mostrou-me a obra...

"À varanda"...

É tarde, estou cansado, o sono coça-me a alma, quero dormir, mas ainda preciso de pensar, lembrar, sentir, ver, ouvir, tudo debaixo da noite, sentado na minha varanda. O céu está diferente, não se veem as estrelas de outrora, mas o fresco da noite é o mesmo. O silêncio perturba, antes não havia silêncios, apenas rebuliços, conversas em alta voz debitadas através de janelas escancaradas, muitas delas sob o efeito do álcool. As crianças, com os seus gritos, choros e risos, competiam com os latidos dos cães nervosos com tanta algazarra. Não há crianças, apenas vazios, ouço apenas um cão a ladrar ao longe, e um outro ao perto, um ladrar diferente, não estão nervosos, apenas sequiosos de brincadeiras. Algumas conversas não inteligíveis surgem de uma esquina, nada que se compare com os gritos e a vozearia misturados sem tom mas com muito som. Já se calaram, é pena, porque gosto de ouvir o cantar de conversas mergulhadas na brisa da noite. Tudo mudou, até as paredes e varandas das casas viz...

"Premonições"...

Uma manhã diferente das outras em que as consultas se transformam em tertúlias, os diagnósticos em recordações do passado e as receitas são pintadas de quadros, de arte e de história. Afinal, são consultas de vida, consultas de tranquilidade e consultas de saudades. Transformar a ansiedade de uma consulta numa conversa delicada e prazenteira paga o tempo, e paga o ter que acordar cedo e voar, preguiçosamente, pela estrada. As conversas despertam necessidades e estimulam a curiosidade. O regresso não foi feito pelo mesmo caminho. Enveredei por outros arruamentos, vielas, a fim de desfrutar e ver com outros olhos o que já conheço e já vi inúmeras vezes. Há uma grande diferença quando se conhece certos pormenores que até ao momento nos são desconhecidos. Como era ainda cedo, enfiei por certos locais, os quais me obrigaram, inesperadamente, a fazer desvios. Quando pensei em mudar de rumo fui assaltado por uma pequena preocupação, a de ter algum contratempo, como esmurrar o carro. Que rai...

"Tic-tac"...

A notícia de um estudo recentemente publicado em que é "revelado" que os homens com testículos mais pequenos aparentam ter mais cuidados e atenção face aos que apresentam os ditos cujos com maiores dimensões levou-me a escrevinhar uma curta opinião. É recorrente a publicação na comunidade científica de certos trabalhos ditos "sensacionalistas" que são de uma apetência extraordinária para a comunicação social e para o público em geral. É certo que divulgar conceitos científicos é de uma importância inquestionável e que ajuda o progresso, a cultura e o desenvolvimento do ser humano. O pior é que o conhecimento não deve ser feito nesta base, porque pode levar a interiorizar na comunidade conceitos banais, simplistas, enviesados e até, porque não, disparatados, comprometendo a tríade que já foquei, progresso, cultura e desenvolvimento do ser humano. Uma contradição em crescendo, ou seja, cada vez há mais informação que, não sendo devidamente tratada, pode constituir u...

"Fome"...

Sinto fome. Não é habitual. Falta pouco tempo para poder ir almoçar. É bom sentir fome, penso menos e menos me preocupo. O estômago vazio tem esse condão. Arrepia-me ter as mesmas conversas, vomitar os mesmos conselhos e advertir os mesmos perigos para receber em troca a mesma indiferença, a mesma desconfiança, a mesma, quase que me apetecia dizer, brutalidade. Lentamente começo a ficar indiferente face aos factos. Mudar comportamentos? Seria bom, mas nem sempre se consegue e sempre que falo, quase sempre sinto um olhar de descrença, e às vezes de náusea, como se estivesse a insultar ou roubar a tranquilidade a uma pessoa. Não suporto alguns olhares, não é que fique intimidado, mas incomodam-me, não escondem o que pensam, mostram o que são, convencidos de que estão protegidos atrás de barreiras intransponíveis. Barreiras de cartão, é o que são. É quase tudo a fingir. Só o sofrimento é que não, esse dói, perturba e rouba a tranquilidade. Nessa altura, a humildade brota lágrimas de dor,...

"À pressa"...

Comi à pressa, estava com pressa, matei a fome e corri à pressa. Sento-me, ainda tenho alguns minutos, não muitos, mas os suficientes para dar ao dedo, libertar a alma e dar descanso ao estômago para que possa trabalhar. Já o adverti, sem pressa, não vá a pressa dar-me cabo da tarde. Não sei se me ouviu ou não, mas quero pensar que sim. Sento-me, ainda tenho alguns minutos, não muitos, mas os suficientes para dar alimento à minha alma, sem pressa. Gostava de permanecer aqui muito tempo, o tempo necessário para matar qualquer pressa, a pressa de viver, a pressa de trabalhar, a pressa de me incomodar, a pressa de me libertar e a pressa de sofrer. Tudo merece ser feito sem pressa. Eu queria mas não consigo. O único sítio em que o tempo passa sem pressa é aqui, ainda não passou muito tempo, não o sinto, nem quero senti-lo, quero apenas ficar sentado na penumbra do espaço e na sombra do tempo, onde o sol não entra, o calor também não, o frio desaparece e a tranquilidade nasce e renasce num...

"Conselho"...

Estar sentado sozinho numa esplanada ao fim da tarde é aliciante porque permite conjugar muita coisa, o sol, a brisa fresca, os sons da água, o agitar da passarada, o coaxar das rãs e o silêncio dos humanos. Eis que alguém me cumprimenta. Não o vi chegar, mas a sua voz inconfundível, espécie de mel embrulhado em eterna malandrice, denunciou-o. Olhei e cumprimentei-o com prazer. Estava agarrado a um gelado. Parecia um puto. Apesar da proeminência abdominal, e do bigode e pera que começam a perder o grisalho, via-se que o saboreava com particular prazer. Olhou-me e atirou: - Um gelado! Tem que ser, apeteceu-me, estava em casa e disse para mim, agora, que não está lá ninguém, é a altura de comer um gelado. E a minha mulher também saiu. Um gelado não faz mal a um diabético, pois não, senhor doutor? - Ah! É diabético? Perguntei-lhe. - Sou! Mas não sou daqueles que tomam as injeções, como é que se diz? - Insulina. - Pois, isso mesmo. Não sou desses, eu sou um diabético normal. - Quais são o...

"Sopro"...

Um sopro para poder começar a tarde. Pode ser um sopro de indiferença, um sopro de alegria, um sopro de esperança, um sopro de criatividade, um sopro de vida, o que eu quero é sentir, ouvir ou tocar um sopro. O sopro desperta-me. O sopro tranquiliza-me. É a força da justificação capaz de invadir o corpo e a mente que lutam sem ter nada para lutar. O sopro é a única unidade de tempo que vale a pena utilizar, mede, marca e não deixa recordação. É apenas um sopro. O que eu precisava agora era mesmo de um sopro, vindo não importa de onde, apenas um sopro que me levasse a recordá-lo no futuro através de curtas linhas para o poder saborear. Saborear um sopro ou respirar um sopro? Afinal tudo começou com um sopro e irá terminar com um outro. Dois sopros. Não me lembro do primeiro e não quero lembrar-me do último, o que eu queria era um pequeno sopro de vida, de satisfação, de alegria ou de tranquilidade, apenas um, um sopro, mas neste instante. Não o sinto, não o vejo, mas desejo-o.

"Testículos"...

A notícia de um estudo recentemente publicado em que é "revelado" que os homens com testículos mais pequenos aparentam ter mais cuidados e atenção face aos que apresentam os ditos cujos com maiores dimensões levou-me a escrevinhar uma curta opinião. É recorrente a publicação na comunidade científica de certos trabalhos ditos "sensacionalistas" que são de uma apetência extraordinária para a comunicação social e para o público em geral. É certo que divulgar conceitos científicos é de uma importância inquestionável e que ajuda o progresso, a cultura e o desenvolvimento do ser humano. O pior é que o conhecimento não deve ser feito nesta base, porque pode levar a interiorizar na comunidade conceitos banais, simplistas, enviesados e até, porque não, disparatados, comprometendo a tríade que já foquei, progresso, cultura e desenvolvimento do ser humano. Uma contradição em crescendo, ou seja, cada vez há mais informação que, não sendo devidamente tratada, pode constituir u...

"Folhas"...

Ainda não começaram a cair em força, mas já estão a perder a frescura, dobram-se, não falam, não cantam de alegria e gemem de dor sob o vento que lhes seca as poucas lágrimas que ainda tem. Querem amarelecer e envergonham-se de não poderem viver. Querem fugir para longe nas asas do vento. Ficam livres da vida e presas da morte. Envergonham-se, mas não têm medo. Querem voar e sentir o que nunca sentiram. Como se pode sentir o mundo quando se está preso à vida? São folhas, algumas a avermelharem-se, outras a serem salpicadas de pequenos pontos amarelados e outras a quererem ansiosamente morrer antes do tempo ou marcar o início do novo tempo. Algumas folhas vêm atrás de mim. Correm. Param. Voltam a andar e os seus sons secos de lamúria ou de desencanto chamam-me a atenção. Paro. Olho para trás e elas param, não com medo, mas aflitas por não saberem para onde ir. Sons de brisa, sons de folhas secas a seguirem-me e sons de árvores desejosas de se despirem, sons dentro do meu silêncio. Têm s...

"Escrever"...

Sinto uma sonolência matinal. Não é habitual. Não sei o que fazer. Apetece-me fugir. É normal. Fugir dos outros e fingir para mim. Escrevo, o que é natural, não para os outros, mas só para mim. Partilho ou não partilho? Hoje não me apetece partilhar com ninguém, hoje escrevo apenas para mim, não vá alguém ler o que é só para ti.

"Ansiedade"...

Há dias em que a ansiedade esmaga dolorosamente as vísceras, importunando e confundindo a alma, que começa logo com tremores fruto de um estranho frio que o calor do verão não consegue apagar. Há dias em que a simultaneidade de acontecimentos perturba as lembranças e os factos, misturando-os, e dificultando o discernir de cada um deles. A ansiedade e a tristeza de uma memória são obnubiladas pela preocupação do momento. O passado e o presente misturam-se em ondas de angústia e de tristeza com cores diferentes. As formas desaparecem e misturam-se, criando outras, diferentes, como se cada uma quisesse diminuir a dor da outra. Sentir é viver. Viver é recordar. Recordar é apagar. Mas eu quero lembrar-me, talvez amanhã ou daqui a alguns dias. Vou recordar, porque não é todos os dias que os outros se lembram de mim. Hoje lembraram-se. Eu também vou lembrar-me, pena que as lembranças do passado e a inquietação do presente não me tivessem deixado perceber o que aconteceu. Vou recordar, amanhã...