Saí de casa e fui procurar um espaço. Procuro espaços para poder ter o meu espaço. Hoje, o meu espaço é um espaço aberto, cheio de vento suave que foi encarregado de cuidar das folhas do parque. Tremem, e algumas esvoaçam para a liberdade da morte; estão felizes e não se arrependem de ter vivido. Ouço-as e vejo-as por todo o lado. Cantam. O seu cantar é doce, acalma e seduz. O vento consegue criar uma musicalidade única com o contributo das velhas árvores. Pequenos insetos, curiosos, sentam-se em cima de mim espantados com a minha presença. Afasto-os. Não quero perturbar o seu espaço. O espaço está cheio de vida e deserto de almas humanas. Gosto de sentir os efeitos de espaços vazios e cheios de lembranças. Olho para a capela e recordo que existe no seu interior uma bela Pietà. Olho para a capela e recordo outros momentos em que estive sozinho acompanhado da Pietà e de uma alma recém-libertada. Olho para a capela e recordo os sons das ramagens, a sua música e as suas cores como se fosse hoje. Tudo igual. Agora estou cá fora, entre as árvores, a agradecer-lhes o cuidado que tiveram. Foi há um ano, mas só agora me lembrei, ou, então, foram elas que me chamaram. Será que querem companhia? Não sei, talvez, mas eu quero, gosto delas. Ainda não agradeci à Pietà a sua companhia naquele dia. A Pietà é bela, muito bela. Atrai-me. Sempre me fascinou. Não resisto. Sempre que vejo uma Pietà desapego-me do mundo, e entrego-me a uma forma de beleza em que a dor não dói. Sempre que vejo uma Pietà desapego-me do mundo, e encontro uma estranha paz em que o sofrimento desaparece. Sempre que vejo uma Pietà desapego-me do mundo, e acredito no futuro do mundo. Hoje vi uma Pietà, não a que está na capela. e que um dia me fez companhia, mas noutro local, não muito longe. Uma adorável Pietà. Hoje é o dia da sua festa. As portas estavam abertas e o templo enfeitado. Entrei e vi a Pietà, bela como todas as Pietàs, e tranquila como todas as Pietàs. É estranho como o retrato de um momento de grande sofrimento consegue mudar o pensamento. É estranho como o ar de pranto se pode transformar num dos maiores encantos. É estranho como num domingo à tarde a alma não arde.
Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.
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