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"Premonições"...


Uma manhã diferente das outras em que as consultas se transformam em tertúlias, os diagnósticos em recordações do passado e as receitas são pintadas de quadros, de arte e de história. Afinal, são consultas de vida, consultas de tranquilidade e consultas de saudades. Transformar a ansiedade de uma consulta numa conversa delicada e prazenteira paga o tempo, e paga o ter que acordar cedo e voar, preguiçosamente, pela estrada. As conversas despertam necessidades e estimulam a curiosidade. O regresso não foi feito pelo mesmo caminho. Enveredei por outros arruamentos, vielas, a fim de desfrutar e ver com outros olhos o que já conheço e já vi inúmeras vezes. Há uma grande diferença quando se conhece certos pormenores que até ao momento nos são desconhecidos. Como era ainda cedo, enfiei por certos locais, os quais me obrigaram, inesperadamente, a fazer desvios. Quando pensei em mudar de rumo fui assaltado por uma pequena preocupação, a de ter algum contratempo, como esmurrar o carro. Que raio de pensamento. Uma premonição? A par de muitas outras? Fiz, calmamente, o percurso obrigatório acabando por ir por onde não deveria, por imposição de umas malditas obras que, nesta cidade, costumam perpetuar-se a fazer relembrar a igreja de Santa Engrácia! As ruelas apertavam cada vez mais até que senti um estranho ranger na parte lateral direita do veículo. Fiquei com a sensação de que a premonição se tinha cumprido. Um misto de surpresa e de aborrecimento. Nada de especial, obviamente, acontece a quem quer meter o Rossio na rua da Betesga, mas mesmo assim consegui! Ficou uma amolgadela e uns riscos. Nada de importante, apenas o sinal de que certas premonições ocorrem, quando as sentimos e voltamos a recordar quando as esquecemos. Mesmo assim fui até lá e vi com outros olhos o que já tinha visto muitas vezes. Agora não preciso de ir novamente, basta-me olhar para a pequena amolgadela e uns riscos para reviver um episódio, que começou bem e que irá continuar. 
Só tenho de fazer uma coisa, sempre que tiver uma premonição tenho que pensar nela, durante mais tempo, porque se assim fizer então tudo corre bem, nada acontece! Falo das más premonições, porque as boas não se esquecem, logo, não se realizam, só as outras, mas só quando me esqueço delas. Enfim, almocei tranquilamente sem sobressalto. Vou continuar, a tarde é longa, e espero sem más premonições...

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