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"Fome"...


Sinto fome. Não é habitual. Falta pouco tempo para poder ir almoçar. É bom sentir fome, penso menos e menos me preocupo. O estômago vazio tem esse condão. Arrepia-me ter as mesmas conversas, vomitar os mesmos conselhos e advertir os mesmos perigos para receber em troca a mesma indiferença, a mesma desconfiança, a mesma, quase que me apetecia dizer, brutalidade. Lentamente começo a ficar indiferente face aos factos. Mudar comportamentos? Seria bom, mas nem sempre se consegue e sempre que falo, quase sempre sinto um olhar de descrença, e às vezes de náusea, como se estivesse a insultar ou roubar a tranquilidade a uma pessoa. Não suporto alguns olhares, não é que fique intimidado, mas incomodam-me, não escondem o que pensam, mostram o que são, convencidos de que estão protegidos atrás de barreiras intransponíveis. Barreiras de cartão, é o que são. É quase tudo a fingir. Só o sofrimento é que não, esse dói, perturba e rouba a tranquilidade. Nessa altura, a humildade brota lágrimas de dor, de angústia, lágrimas frias, límpidas e salgadas. Mas nem sempre brotam lágrimas, nem sempre a humildade chora, algumas vezes a raiva e a fúria empestam as palavras, esfriam o olhar e ferem como setas envenenadas. Comportamentos diversos, muitos a fingir. Alguns comportamentos são cegos, mudos e desconfiados, como se fossem pecados a necessitarem de ser limpos por qualquer hóstia caseira. Outros não, são naturais, são frutos de uma existência sem sentido em que a dor surge como uma justificação. Para quê a dor? Para justificar o quê? A vida? A morte? Nesses seres, impera o silêncio, os olhos desabotoam-se e mostram a nudeza da alma. Não falam, não comentam, aceitam o infortúnio sem saberem porquê e sorriem com doçura, e dizem que se sentem melhores, mesmo que estejam a morrer. Fogem para esquecer. Morrem porque são esquecidos. São estes que me continuam a preocupar e a não entender. Os outros, os que destilam raiva, brutalidade e que empestam as palavras e ferem com o olhar, o melhor é não os olhar, não os aconselhar, apenas os cumprimentar.
Estou com fome. Ainda não comi. O estômago quer desviar-me as atenções, mas não conseguiu. Ainda consegui esquecer por momentos o vazio do estômago graças ao vazio da alma.

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