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"Ansiedade"...


Há dias em que a ansiedade esmaga dolorosamente as vísceras, importunando e confundindo a alma, que começa logo com tremores fruto de um estranho frio que o calor do verão não consegue apagar. Há dias em que a simultaneidade de acontecimentos perturba as lembranças e os factos, misturando-os, e dificultando o discernir de cada um deles. A ansiedade e a tristeza de uma memória são obnubiladas pela preocupação do momento. O passado e o presente misturam-se em ondas de angústia e de tristeza com cores diferentes. As formas desaparecem e misturam-se, criando outras, diferentes, como se cada uma quisesse diminuir a dor da outra. Sentir é viver. Viver é recordar. Recordar é apagar. Mas eu quero lembrar-me, talvez amanhã ou daqui a alguns dias. Vou recordar, porque não é todos os dias que os outros se lembram de mim. Hoje lembraram-se. Eu também vou lembrar-me, pena que as lembranças do passado e a inquietação do presente não me tivessem deixado perceber o que aconteceu. Vou recordar, amanhã, depois, não sei, só sei que vou e depois irei saborear para poder contar.

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