Entrou com um sorriso fresco, rasgado e
estranhamente suave, como se fosse obrigada a partilhar a felicidade que
sentia. A conversa fluía normalmente até ao
momento em que lhe perguntei se tinha tido alguma doença
relevante; abrandou um pouco a intensidade do discurso e esmoreceu o sorriso, coisa
de um piscar de olhos; foi tão rápido que passaria
despercebido caso não estivesse a olhá-la.
Estive de baixa durante três anos por causa de um linfoma. Estive muito
mal, mas, graças a uma nova terapêutica,
recuperei, não sei até quando, nem quero
lembrar-me de que estive mais de um ano deitada sem poder fazer nada. Via-se a
pairar entre nós uma estranha mistura de medo, de
sofrimento, de alegria e de esperança. Não quis, obviamente,
aprofundar mais a situação, para mim era suficiente, e, perante a sua
atual situação, limitei-me a tomar algumas medidas que
pudessem não prejudicar o seu estado de saúde,
medidas sensatas e adequadas à sua atividade. Não
entrei em pormenores, é muito complicado numa consulta fazer reviver
o passado de doenças, sobretudo as situações graves. Incomoda-me fazer certas perguntas, porque é
mexer em cicatrizes dolorosas, provocam dor. Dei a entender que tudo iria
correr bem, que não haveria problemas, mas apercebi-me, atrás
daquele doce, suave e amoroso sorriso, que não seria bem assim. Nova,
mas com filhos já muito crescidos. Riu-se com vontade, ao
dizer que tinha sido mãe muito jovem, e ainda bem, porque hoje são
adultos autónomos, nem quero imaginar se os tivesse tido
mais tarde. Agora não há problemas, senhor doutor.
Certas conversas são estranhas, marcam-nos muito e ensinam-nos
muito mais. Recebi mais do que dei, e evitei esmiuçar o
seu passado patológico, aterroriza-me ter de tocar em
cicatrizes da alma. Mas estas coisas nunca acontecem isoladamente, porque logo
a seguir a funcionária, que tão diligentemente me
ajudou, foi, também, observada. Fiz-lhe as perguntas
sacramentais quanto ao passado patológico. Nada de relevante,
ainda bem, pensei eu, mas ao colocar o estetoscópio verifiquei de imediato
que tinha caído numa planície inesperada, não
disse nada, auscultei apenas. No final, a senhora disse: senhor doutor,
esqueci-me de dizer que fui operada há quinze anos. Não
comentei e nem fiz qualquer referência, transmiti a ideia de que tudo estava
bem e que essa informação era um pormenor sem importância,
não valia a pena estar a recordar momentos
dolorosos para a alma. Retribuí-lhe o sorriso, o meu misturado com o da
senhora que a tinha antecedido, e que me tinha oferecido com tanta gentileza, talvez
para poder oferecer a quem dele necessitasse. Foi o que eu fiz.
Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite. Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.
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