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Olga



Sempre que olho para a Rússia pressinto que os velhos tiques da ditadura vermelha continuam a fazer das suas. Há certos comportamentos que não se perdem por mais voltas que se deem, é algo intrínseco, faz parte da cultura dos povos. O caso concreto que irei abordar comprova, penso eu, esta visão.
Foi presa uma cientista, de sua graça, Olga Zelenina, acusada de auxiliar traficantes de droga. O é que a senhora fez para ser objeto de tão grave acusação? Elaborou, na sua qualidade de perita em química analítica, relatórios para a defesa de um homem de negócios, Sérgio Shilov, sob investigação por tráfico de narcóticos. Avaliou a concentração de opiáceos numa importação de sementes de papoila para serem usadas na alimentação, pão e bolos. As sementes de papoila (Papaver somniferum) não contém alcaloides, estas substâncias aparecem noutras partes da planta. Na embarcação que levou de Espanha para Rússia as sementes de papoila, Zelenina verificou que as concentrações eram desprezíveis e que não havia evidência científica de que as sementes seriam usadas para obter drogas ilegais. Tramou-se. O tribunal mandou-a para a prisão onde foi colega de uma das Pussy Riot. Os cientistas russos contestam a decisão arbitrária de deter alguém que se limitou a relatar cientificamente o que lhe foi dado a observar. Zelenina nunca manifestou opiniões políticas nem exerce qualquer atividade política, é apenas uma cientista que se limitou a descrever e a analisar o que encontrou. A Rússia tem um passado de perseguição aos cientistas um pouco invulgar, sendo premiados os que "sustentaram" cientificamente o regime comunista, o caso do lyssenkismo é paradigmático do mau uso e abuso da ciência. O medo grassa entre a comunidade científica russa, medo de ser apanhado na rede de perseguição que ainda hoje persiste para aquelas bandas.
O ser humano é frágil e muito vulnerável a determinadas estratégias que sabem utilizá-lo como forma de intimidar os demais. Eliminar ou prender injustamente uma pessoa não "aquenta nem arrefenta" os interesses já instalados, porque são poderosos, porque têm vida própria, porque se alimentam e alimentam grupos dominadores. Perseguições políticas são uma constante, graves em determinadas sociedades e discretas, mas nem por isso menos eficientes, noutras. Os opositores têm de ser "exterminados", assim como os que manifestam o seu apoio a outras correntes políticas. O pior é quando os cientistas são apanhados nesta teia. A independência e a objetividade científica podem, ao contrariar certos desígnios, levar os seus autores a malharem os ossos numa cela ou num qualquer "goulag". Uma probabilidade muito forte.

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