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Bronze...


A memória é despertada de quando em vez de forma inesperada, provocando o acender de emoções e o despertar de lembranças, a ponto de obrigar a inesperadas viagens no tempo, fazendo inveja às águas de um rio, que, ao fim de algum tempo, certas da morte e do esquecimento nos majestosos mares, desejam ardentemente subir por onde descem. Não conseguem. O homem consegue, a sua vida é uma corrente capaz de regressar às origens ao tropeçar em qualquer meandro do seu percurso, contrariando a afirmação de que a mesma água não corre duas vezes debaixo da mesma ponte. O homem consegue criar pontes para que as águas corram muitas vezes debaixo delas, tantas quanto o acaso permitir. O acaso existe. O acaso obriga a procurá-lo sem dar a entender que existe. Exige silenciosamente a presença, uma necessidade que alimenta a memória que pretende manter viva. Sem essa necessidade, sem o invisível acaso, não há memória, não há vida, não há passado, não há futuro, não há nada.
O bronze, com aspeto de que quer envelhecer, redobrando a dignidade da figura em causa, encimava a coluna de mármore rosa que ostentava outro rosto, esculpido na essência da pedra, a força masculina e a doçura feminina do casal. Duas imagens, uma em três dimensões, a outra em duas, mas cujo somatório despertou a quarta, a do tempo, a da viagem ao passado, trazendo-o até ao presente. O bronze e o mármore, inesperadamente, estremeceram, provocando uma cascata de emoções e uma explosão de sentimentos. Uma onda de amor, capaz de afogar uma pessoa, aqueceu o coração de quem teve um passado comum. As almas presas ao bronze e ao belo mármore rosa explodiram numa alegria silenciosa. O desejo de duas almas querendo regressar à vida confundiu-se com a viagem de outra alma ao passado. 
É simples viajar no tempo, bastar deixar as almas livres como as águas de um rio, o rio da vida e o rio da morte...

(O Algarve também pode ser fonte de inspiração, de memórias, de encanto, o "Outro Algarve"...)

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