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"Perfect"...



Acabo de almoçar. O tempo fusco, cinzento, húmido e morno não me convida a sentar em bancos de pedra para olhar e falar com doces e encantadoras flores. Procuro um refúgio para o corpo e para a alma. É tão bom encontrar um espaço que pode ser só meu ainda que por breves instantes. É o que me tem acontecido ao longo dos tempos. Quando saio dos meus domínios acabo, frequentemente, por tropeçar em belos sítios, tão belos, frescos e tranquilos que não deixam de me surpreender. 
Estou numa zona feia, triste, suja e velha, o tempo não ajuda, porque quando faz sol tudo o que é feio, triste, sujo e velho transforma-se numa surpresa capaz de embelezar o mundo e as pessoas. Hoje não. Haverá por aqui algum templo, não importa de que religião, apenas um templo onde possa sentar-me, escrever e sentir-me protegido, seja por santos ou deuses, menores ou maiores, visíveis ou invisíveis, não importa. O que interessa é entrar num qualquer espaço onde ninguém possa importunar-me. É a única coisa que procuro. Encontrei mais um. Sento-me no espaço, arejado, iluminado, tranquilo e refrescante. Estou só e, ao mesmo tempo, faço companhia a mim mesmo. Entra uma pessoa, depois outra. Sentam-se, ajoelham, rezam, pedem, sofrem com toda a certeza dores das suas almas e com as dores do corpo de pessoas amadas, sim é isso. Vejo-as, não as incomodo, mas também não me incomodam, são crentes. Eu sou pagão, um ser que crê de maneira diferente mas não menos intensamente, crente na vida, crente na beleza e crente no silêncio. Olho-as quando abandonam a pequena capela. Gosto de ver estampado nas suas fácies uma estranha tranquilidade associada a uma surpresa terna pela minha presença. Não sei se adivinham o que penso ou o que escrevo. Sorriem e a tranquilidade dos seus espíritos enriquece-se com uma espécie de alegria que registo com agrado. Ondas de interrogação e admiração invadem as suas almas, mas que estranho, o que é que ele estará a fazer? Nada. Estou apenas sentado e deixo que a minha alma digira o tempo de descanso que me está destinado. 
Olho para o Cristo iluminado e aquecido pelas almas silenciosas que entram e saem. Também tenho os meus Cristos, alguns muito belos, outros rechonchudos, mas também sofredores, toscos, elaborados e até divertidos. São meus. Este é muito elegante e magistralmente esculpido em madeira de uma bela e inocente árvore que deve ter absorvido todos os raios de sol que lhe chegaram desde que nasceu até ser sacrificada ao seu deus. Raios de sol de outras eras armazenadas em madeira esculpida pelo cinzel de um desconhecido que liberta incessantemente calor e luz nos que entram para rezar e que me convida a escrever e a relembrar os meus Cristos. É para isso que ele serve. Não é meu, mas se fosse com toda a certeza que não se importaria. Escrever a propósito de um Cristo ao sabor do belo tema "it's got to be perfect" pode ser novidade para muitos, heresia para alguns, mas não para Ele. Uma doçura. Uma experiência que iremos repetir, não é verdade? 
 Sim!

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