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Mensagens

"Renascer"

Tarde rotineira. Ver trabalhadores, na sua maioria saudáveis ou sem grandes problemas, não é estimulante, apenas justifica a necessidade de cumprir as regras e fomentar a prevenção que tanta falta faz entre nós. Aspeto elegante, solta nos gestos, com um à-vontade construído ao longo de uma vida ainda curta, respondia às perguntas com calma e alguma curiosidade. Vi, perfeitamente, que era uma mulher perspicaz, socialmente reconhecida e culturalmente distinta. Agradou-me a atitude; transbordava simpatia e tranquilidade. Subitamente, fui obrigado a engolir em seco. Tremi e assustei-me. Contou-me que tinha estado de baixa devido a cancro da mama. Os meus olhos saltaram do seu rosto à procura da data do nascimento. Fiz os cálculos sem esforço. Tinha 36 anos de idade e foi operada há pouco mais de um ano. – Também fiz quimioterapia. Disse com um sorriso muito discreto. É natural, pensei. A forma como ia descrevendo os acontecimentos, com calma e muita confiança, mexeu comigo. Confesso que...

Indiferença

Mais um dia na vida de uma pessoa. Retenho alguns apontamentos. Trabalho, dedicação, meias surpresas, dois ou três sorrisos gratuitos, algumas conversas cheias de informação e de esclarecimentos, orientações, ajudas e expectativas cinzentas a quererem marcar o pêndulo da vida. Um dia como qualquer outro, um dia condenado ao esquecimento. O sentimento da indiferença e as sombras do amanhã apossaram-se de mim como se fossem insetos esfomeados de sangue. Bem tentei afastá-los mas não consegui. Ainda tinha mais uma tarefa a cumprir ao fim da tarde. Antes de a iniciar, uma pequena conversa, informal, ultrapassou e apagou tudo o que eu considerava como indiferença e sombras. Um drama contado na primeira pessoa que me fez compreender, mais uma vez, que os reais problemas não são os que julgamos sentir, mas sim os que ouvimos e nem imaginamos...

"Centro de dia"...

Uma segunda-feira sem nada que fazer é pouco comum. Confesso que não consigo ocupar tempos livres sem trabalhar ou ter que realizar algo devidamente programado. O dia estava bonito e fiz companhia à minha mulher. Tomar um café sabe sempre bem. Entrámos no centro comercial. É raro ir a grandes superfícies. Entrei e dei conta de que uma livraria tinha desaparecido, a Bertrand. Recordo que sempre existiu naquele espaço. Comprei tantos livros, vi tantas obras e folheava com volúpia aquelas que mais me seduziam. Estar entre livros é como estar no meio de uma floresta encantada onde se consegue ver, ouvir, cheirar e respirar a essência do mundo e compreender a razão de ser da vida. Um livro transforma qualquer pessoa, desde que se lhe toca até viajar na recordação que só o tempo sabe transformar e esculpir com novas formas. – Desapareceu a livraria! Mau sinal. Sinal de crise. Sinal de falta de dinheiro. Ninguém quer adquirir a beleza criativa do mundo. Afinal, isto está mesmo muito mau. Qua...

O desconhecido

Domingo de manhã. O ritual alterou-se um pouco. A responsabilidade obrigou-me a fazer um trabalho suplementar. Começo a ficar mandrião. Deve ser da idade e à falta de entusiasmo nas iniciativas paras as quais sou convidado. Eu, que não adiava nada, fazia tudo com tempo suficiente para que as aranhas pudessem construir as suas belas e geométricas   malhas, agora só deixo apenas uma fazer a rede. Consegui, contra todas as expectativas, escrever tudo em duas horas. Afinal de contas a idade também serve para alguma coisa! Ao chegar ao café surpreendeu-me a falta de gente. Não é habitual. Estavam, naturalmente, os crónicos, os “malandros” e os que sempre aspiraram à condição de reformados prematuros. Pouca gente. Ontem, também observei o mesmo fenómeno. Ainda não tinham iniciado as badaladas do meio-dia, quando o sino começou a tocar. Toque triste a anunciar a morte de alguém. Recordei-me que na noite anterior tinha reparado que estava afixado no vidro da porta da velha funerária, ...

Silêncio dos deuses

Gosto de passear pelas minhas bandas, porque apesar de conhecer bem a região, acabo por me surpreender com coisas novas, nunca observadas ou não sentidas. Não foi o caso de hoje. Não é que não me tenha apercebido de belezas naturais que nunca vi ou de alguns monumentos mais ou menos discretos que mereciam atenção, mas é preciso abrir os olhos de espírito. Hoje, as portas emperraram e os olhos fecharam. Ainda fiz alguns esforços. Relembrei personalidades e histórias ocorridas naqueles espaços. Senti que poderia criar algo novo, simples e suficientemente belo para recordar. Nem sempre consigo. Fico com pena de ter perdido o suave e colorido veludo produzido pelo sol no silêncio abandonado de uma natureza delicada e amorosa que se entristeceu um pouco por não lhe ter dado mais atenção e rezado a sua oração. Perdi muitas oportunidades, mas mesmo assim, num breve piscar de olhos, ao passar por uma povoação sem gente, triste e abandonada, vi dois arbustos que abraçavam as colunas do te...

Sociedade cadavérica

Todos os dias vivo uma ou mais histórias. Gosto de as registar. Gravo-as na memória e, sobretudo, no coração. Ajudam-me a compreender o mundo e a suavizar a vida. Partilho o meu sentir com os anseios de outros numa perfeita e anónima harmonia. A senhora entrou com um semblante nervoso, quase que diria desesperada. Sorri. Não disse nada. Esperei que me contasse o que a atormentava. Trabalha numa instituição que presta cuidados a idosos e doentes. Possui uma longa experiência nesta área. - Oh senhor doutor, peço-lhe desculpa, mas estou muito nervosa com o que me aconteceu hoje. Nunca vi nada semelhante. - Mas o que é que aconteceu? Perguntei. - Antes de vir para aqui, tivemos, eu e uma colega, de ir cuidar de uma utente, como habitualmente fazemos. Levar a comida, lavá-la, cuidar como é nosso dever. O senhor sabe muito bem o que fazemos. Um senhor, que vive num apartamento do prédio, no de cima, veio bater à porta, pedindo para irmos ver a mulher que estava a morrer. Como deve ver que ...

"Delito de opinião"

Não me lembrava deste texto. Foi publicado em 11.05.11. Uma capicua. Acabou por ser publicado em "Delito de Opinião". Intitulei-o, "Esperança". "Esperança Gosto de ensinar porque aprendo. Aprender é o meu modo de estar na vida. Refugio-me no conhecimento, na reflexão e tento interpretar o que me cerca, procurando muitas coisas, coisas que nem eu sei o que são, só sei que existem. De quando em vez tropeço nalgumas, que, gentilmente, me abraçam para logo de seguida fugirem rindo-se da minha ingenuidade. Olho e sinto que fico mais rico e mais pobre. Rico de conhecimento e pobre de esperança. Uma estranha associação, quando aumenta um diminui a outra. Mais vale o contrário, ser-se rico de esperança e pobre de conhecimento, a recordar a expressão bíblica “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”. Mas eu não quero ir para o céu, porque não consigo imaginá-lo, e para que serve uma coisa que não se consegue imaginar? Para nada. Aprendi que ...

Mar amado

O mundo sombreado De um mar amado. Lado a lado,  Cheio de passado.

Montanha

Lembrança de um dia de outono. Recordação triste. Pensamento de gelo. O sol fez o resto. Pintou com cores belas a minha alma. Levantei-me cedo no meio de sussurros vindos de todos os lados da montanha. O ar muito fresco empurrou-me para um pequeno passeio. Era cedo. Desci acompanhado da brisa que cantarolava de felicidade. Vi as encostas atapetadas de dourado, enquanto belas e avermelhadas folhas se despegavam sem pena do seu mundo. Morte feliz. As cores vivas surgiam de todos os lados, azuis, verdes, vermelhos, amarelos, dourados, brancos, cinzentos, numa estranha amálgama; o ideal para afogar a solidão. Nessa manhã, um velho amigo transformou-se numa daquelas belas folhas secas e acastanhadas, com laivos de dourado, que caíam suavemente como se fossem dançarinas a fugir cheias de alegria para o seu novo mundo. A brisa fresca estimulava cada vez mais a imaginação. A par da vida que se esfumava, recordei momentos deliciosos, cheios de silêncio humano, onde apenas o cantar do vento...

O morro

A fotografia apareceu sem dar conta. Um morro suave, uma árvore cheia de fé e uma capela a olhar para o velho caminho orlado de ervas secas e douradas, pintavam um belo quadro numa tarde perdida do tempo. A pequena capela, ao refugiar-se em silêncio sob a sombra da única árvore, dominava o espaço sagrado com a humildade moldada ao longo dos séculos.  Nasci e vivi perto do morro. No, então, denominado "cimo de vila". Comecei a ouvir falar do santo desde muito pequeno. Diziam-me para não ir para o morro, porque do outro lado a encosta era quase a pique e cheia de pedras. Fingia que ouvia, mas sempre que podia fugia até àquele local. O que mais me impressionava era a capela, pequena demais para um santo que também tinha de ser minúsculo. Dava uma ou duas voltas e depois aproximava-me da outra encosta para ver se conseguia apanhar uma boa mimosa de base curva a imitar um "stick" de hóquei. Na altura gostava de jogar ao hóquei, neste caso, versão hóquei em campo, com ...

Lágrimas de sino

Não ouço o sino. Falta pouco.  Por onde passo registo os sons dos sinos. Gosto de os ouvir, desde o dar as horas, as meias, os quartos, até aos mais tristes ou alegres repiques. Cada um tem a sua própria assinatura. Escrevem de maneira diferente o que lhes vai na alma de bronze. Os seus sons surgem por vezes com voz rouca, dura, seca, cristalina, alegre ou fina. Gosto de os ouvir, mas também gosto de os sentir. Atrás do som vem a vibração como se fosse uma mão capaz de acariciar ou acalmar o que vai no coração.  Gosto de ouvir sinos.  Quando ouço pela primeira vez um novo sino desligo-me de tudo. Fico desperto. Saboreio a sua voz e imagino o que ele já viu, cantou, escondeu, alertou, chorou e alegrou. Sinto as suas emoções, que correm atrás dos sons. Quero guardá-las, mas não consigo, esfumam-se como a neblina da manhã ao nascer do majestoso e ardente sol.  Toques diversos, rápidos, lentos, alegres, tristes, formais ou informais, os sons dos sinos conseguem ...

"Fonte dos cães"

Uma preciosidade perdida no meio do nada....

Procurar

Nossa Senhora do Pranto Procurar é uma forma de estar e de acalmar a vida. Quando descubro o que não espero sinto uma varredura fresca na minha cabeça. Uma sensação única que ajuda a compreender e a ver outros mundos que baloiçam em círculos loucos e quase invisíveis. Nesta altura do ano somam-se as romarias e festividades religiosas. No círculo onde cresci, julgo não haver nenhuma que me tenha escapado. Nem podia. A vida fazia-se em função das festividades religiosas. Um bom pretexto para o importante acessório, a festa pagã, mais interessante, ruidosa, cheia de alegria, de comida, de bebida e de música popular. Ia-se à procissão ou à missa, mas o que interessava era o que vinha a seguir. Um pequeno sacrifício silencioso que antecedia a desejada algazarra dos romeiros esfomeados e sedentos de vinho. Havia as bancas onde se vendia de tudo. Na mais perfeita desorganização misturavam-se tendeiros e taberneiros, cujas carroças, cheias de pipos de vinho e de comida, atraíam com ma...

Cidadania

Saber que podemos contribuir para o crescimento e modernidade de uma instituição provoca sensação de bem-estar. O mundo gira em redor de muitas coisas que passam despercebidas. Admiro gente desconhecida desejosa de vencer as dificuldades da vida. É curioso verificar que é assim que o mundo evolui; pessoas que labutam sem serem conhecidas, admiradas ou apreciadas. O somatório dos seus contributos é extraordinário e recompensa as amarguras que nos atolam constantemente. A soberba dos protagonistas que se arvoram como sendo os cérebros e decisores da vida pública faz-me rir. Convencem-se de que são os verdadeiros responsáveis pelo desenvolvimento. Não são. Frequentemente não passam de meros pretensiosos com vontade de serem reconhecidos e admirados. A cidadania anónima é a mais poderosa força para desenvolver qualquer área de atividade humana. A noite convida a adormecer na tranquilidade do dever cumprido, semeado em terras férteis da compreensão e da colaboração, a todos os que dão o...

Gesto de atenção

Gosto de uma atenção, de um sorriso, de um olhar tranquilo, de um gesto de nobreza, de um som doce, de qualquer coisa pequena, suave, delicada e que encha o coração. Mesmo sem grandes falas, uma pequena atenção traduz o respeito e afeição de quem sabe exprimir o que lhe vai no coração. Dói-me e exaspera-me a raiva, mesmo a minha quando é despertada pela violência arrogante de quem não vê o que é óbvio, e que constitui a regra mais básica da gentileza humana, o pequeno gesto de atenção. Afinal, também sou sujeito a reações exasperantes que se estendem não só ao fenómeno de ocasião, mas a todos que gritam arrogantemente que só eles têm razão. O que fazer então? Calar-me. Não me mexer. Não sair do lugar. Não ver. Não ouvir. Apenas desejar sentir o que seria da vida se a gentileza de um sorriso ou de um mero gestão de atenção voasse na minha direção. Não voa? Não. Fecho os olhos e deixo-me ir nas ondas virtuais da minha ilusão.