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O desconhecido

Domingo de manhã. O ritual alterou-se um pouco. A responsabilidade obrigou-me a fazer um trabalho suplementar. Começo a ficar mandrião. Deve ser da idade e à falta de entusiasmo nas iniciativas paras as quais sou convidado. Eu, que não adiava nada, fazia tudo com tempo suficiente para que as aranhas pudessem construir as suas belas e geométricas  malhas, agora só deixo apenas uma fazer a rede. Consegui, contra todas as expectativas, escrever tudo em duas horas. Afinal de contas a idade também serve para alguma coisa!
Ao chegar ao café surpreendeu-me a falta de gente. Não é habitual. Estavam, naturalmente, os crónicos, os “malandros” e os que sempre aspiraram à condição de reformados prematuros. Pouca gente. Ontem, também observei o mesmo fenómeno.
Ainda não tinham iniciado as badaladas do meio-dia, quando o sino começou a tocar. Toque triste a anunciar a morte de alguém. Recordei-me que na noite anterior tinha reparado que estava afixado no vidro da porta da velha funerária, no pátio do município, um anúncio da morte. Não parei e, por isso, não consegui saber quem era. Ainda perguntei: - Quem terá sido? – Não sei. – Amanhã ficaremos a saber. O esquecimento tomou conta de mim até ouvir o sino a tocar a finados. - Tocou pouco. Não é habitual. Disse isto, porque logo a seguir tocou o meio-dia. Ainda perguntei se alguém sabia quem era. – Não. - Não sei. – Não sei. Disseram um atrás de outro, continuando nas suas tertúlias futebolísticas. Curioso. Numa terra onde se sabe tudo, e em que a má-língua é a regra, não sabiam quem é que tinha falecido. Pareceu-me estranho, ou talvez não, tudo muda, mesmo em meios pequenos. O esquecimento tomou conta de mim novamente.
Depois do almoço, ao passar pela igreja, vi a porta aberta e junto das escadas um veículo funerário. Nem uma pessoa. Estranho, pensei. Os funerais já não se fazem na igreja matriz há muito tempo. Costuma ser na misericórdia. – Quem terá sido? E porque razão não está ninguém no adro? O esquecimento tomou conta de mim novamente.
Ao fim da tarde, ao chegar a casa, fui ver os jornais que estavam na caixa do correio. Dei uma vista de olhos por todos. Num deles, ao ver a página da necrologia, vi quem era o defunto que ninguém sabia e pelo qual o sino tocou tão pouco, quase que por obrigação. Um cidadão italiano. Tinha oitenta e nove anos. Cruzei-me com ele algumas vezes. Devia viver num dos povos em redor. O seu nome mexeu comigo. Imaginei um pouco do seu passado e entristeceu-me pensar que não tenha tido ninguém a velar o seu corpo ou a acompanhá-lo até ao cemitério.
Espero bem que tenha tido...

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