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"Delito de opinião"

Não me lembrava deste texto. Foi publicado em 11.05.11. Uma capicua. Acabou por ser publicado em "Delito de Opinião". Intitulei-o, "Esperança".


"Esperança

Gosto de ensinar porque aprendo. Aprender é o meu modo de estar na vida. Refugio-me no conhecimento, na reflexão e tento interpretar o que me cerca, procurando muitas coisas, coisas que nem eu sei o que são, só sei que existem. De quando em vez tropeço nalgumas, que, gentilmente, me abraçam para logo de seguida fugirem rindo-se da minha ingenuidade. Olho e sinto que fico mais rico e mais pobre. Rico de conhecimento e pobre de esperança. Uma estranha associação, quando aumenta um diminui a outra. Mais vale o contrário, ser-se rico de esperança e pobre de conhecimento, a recordar a expressão bíblica “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”. Mas eu não quero ir para o céu, porque não consigo imaginá-lo, e para que serve uma coisa que não se consegue imaginar? Para nada. Aprendi que estou condenado a aprender cada vez mais e a viver cada dia que passa com menos esperança. Resta-me alguma esperança? Claro que ainda tenho uma reserva, pequena, decerto, o suficiente para permitir que embriague os meus sentidos através da leitura, da arte, da contemplação, do trabalho, das vidas de outros, muito mais sofredores do que eu e menos exigentes, quanto a felizes, já não sei, mas, também, não importa. Como qualquer sofredor que se preze, tenho que encontrar uma forma opiácea para mascarar a dor. Afinal é simples e viciante, ouvir e contar histórias. Sento-me com amigos, conhecidos, interlocutores ocasionais e, de repente, uma frase, um acontecimento, uma lembrança desperta o revoltar de cérebros inquietos, e as histórias fluem, lindas, dramáticas, dolorosas, alegres, percorrendo todo o espetro dos sentimentos e emoções humanas. É então que consigo ver o que um ser humano mais deseja, contar, ouvir histórias, e viver a sua própria história, livremente.
O tema das últimas histórias andou ao redor do tempo em que falar era perigoso. Como é que se contavam as histórias se não se podia falar à-vontade? Só às escondidas e com muitas cautelas, e, mesmo assim, as consequências podiam ser terríveis. Há dias ouvi: - Temos de começar a ser mais cautelosos em contar as histórias. - Por quê? Não estamos num país livre! - Pois estamos, mas já não se pode dizer o que queremos. - Não?! - Não, senão podemos sofrer consequências. Veja o que aconteceu a fulano que se pôs a contar a história do antepassado de um superior, que até foi verdade, ninguém pode negar. A história tinha o seu quê de rocambolesco rural, mas foi o suficiente para o contador ter sido prejudicado. A partir daqui o tema parecia uma verdadeira cerejeira carregada de pequenas histórias que íamos consumindo umas atrás de outras, sempre com o mesmo denominador, falar começa a ser perigoso. Não foi difícil de concluir, e transmiti-lhe enfaticamente: - Sabe, meu amigo, ainda não perdi a esperança de um dia ser detido por delito de opinião; para quem tem baixa reserva de esperança é muito preocupante, confesso. Entretanto refugio-me no conhecimento, se é que isso serve para alguma coisa..."

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