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"Mimi"...

Tenho muitos hábitos com os quais me dou razoavelmente bem. Um deles é não planear uma saída, vou à deriva, à bolina, esperançado em encontrar algo que me dê prazer, qualquer coisa nova, desconhecida, de preferência ambos. Nem sempre acontece, mas também não me lembro, o que é natural, mas quando encontro sinto uma enorme satisfação, e não me esqueço.
O dia, que deveria ser de verão, despertou aborrecido, com saudades de uma boa invernia, acontece quando se inicia os idos de agosto. Mesmo assim embiquei em direção a Viseu, cidade onde vou cumprir ritualmente promessas que nunca prometi. O instinto levou-me à procura de uma pequena peça, fosse o que fosse, desde que me desse satisfação e prazer. Desta feita não encontrei nada que me agradasse. Paciência. Entrei no recinto da Feira Franca, onde vou há dezenas de anos. Apesar de todas as modificações operadas nos últimos anos, continua a mostrar teimosamente uma velhice resistente a quaisquer liftings ou operações plásticas. No pavilhão das exposições vi logo à entrada um aviso de exposição de pintura do Museu Grão-Vasco sobre Joaquim Lopes. Um cartaz com uma mulher, meio impressionista, atraiu-me com uma força indescritível. Entrei na sala onde pude observar vários quadros a óleo, a pastel e aguarelas que fazem parte do acervo do museu viseense. Nem queria acreditar no que estava a ver, tamanha era a beleza das obras expostas, uma mistura de naturalismo e de impressionismo. Confesso que nunca tinha ouvido falar deste pintor (1886-1956) que foi professor na Escola das Belas Artes do Porto. Seduziu-me particularmente a forma como pintava as diferentes luzes enviadas pelo sol e a sensibilidade com que realçava as paisagens. Tive que adquirir o catálogo, através do qual me apercebi de quem se tratava, o que fez, como fez, como pensou, como se relacionou, como produziu, com quem conviveu e como sofreu. Uma figura notável das nossas artes, que também foi o autor do magnifico painel de azulejos, que me seduz desde que me lembro que existo, e que se encontra no Rossio de Viseu. Mas a mulher, a Mimi, é um encanto. Olho para o quadro e ponho-me a pensar quem seria. Há qualquer coisa de muito especial e que deverá atrair qualquer um. Um enigma para ser descoberto e redescoberto conforme os nossos desejos e emoções, seja o que for que pensemos sobre esta senhora não deverá estar muito longe da realidade.
Partilho esta pequena impressão, porque vem confirmar aquilo que há muito me apercebi. Temos gente genial, artisticamente de um valor difícil de quantificar, somos "donos" de um património de que nos deveríamos honrar, mas não o fazemos, porque os desconhecemos, pelo menos a grande maioria de nós. Conhecemos de cor e salteado nomes de artistas de outros países, indiscutivelmente excelentes, que nos proporcionam prazer e que fazem parte da essência cultural de qualquer um, mas não temos, nem de perto nem de longe, a mesma atitude e carinho pelos nossos. Estou certo de que se fôssemos capazes de criar uma aura idêntica ao redor dos nossos artistas seríamos muito melhores em tudo o que fazemos, ficaríamos mais ricos e o nosso ego atingiria outros patamares com reflexos nas múltiplas atividades que estão na base da grandeza de uma nação. Mas, infelizmente, tal não acontece. É pena, porque temos pessoas verdadeiramente geniais. Só é preciso divulgá-las até à exaustão. Que os responsáveis as promovam e verão que ficaremos mais ricos. Eu, pelo menos, confesso que fiquei.
Vale a pena ver a exposição e adquirir o respetivo livro-catálogo sobre um brande mestre da pintura portuguesa, Joaquim Lopes.



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