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Noite...

Por mais que viva não consigo conciliar certos acontecimentos que me fazem despertar sentimentos e emoções tão díspares. Além de não conseguir fico com uma estranha sensação de que algo não está bem ou, então, acabo por sentir uma indisposição na alma que não me deixa em paz. Estou em férias e tento descansar no verdadeiro sentido do termo. Mas como é já habitual, acabo por ter de passar por situações menos agradáveis. É uma sina a que não consigo fugir. Eu queria descansar o corpo, mas também a alma. O primeiro ainda vai resfolgando na modorra estival, mas a alma não tem esse direito. Um amigo, a quem foi diagnosticado uma situação grave, muito grave, e com quem tive há poucas semanas a última conversa, tem-me perturbado o meu sossego. Nesta semana, tive de tentar arranjar outros meios, mais sofisticados, para poder aliviar-lhe o seu sofrimento. Contactos, mais contactos e ficou tudo preparado para que na segunda-feira pudesse dar início à última fase da vida, minimizar as excruciantes dores. Sexta-feira, hora de jantar, comunicaram-me que tinha acabado de falecer. Velório em casa. Fui vê-lo. Evito olhar para a face de um morto conhecido. Desta feita não consegui. Comecei a reviver alguns períodos, sobretudo os das campanhas eleitorais autárquicas. Gostava tanto, que, apesar de não fazer parte das listas, tirava sempre uma semana de férias para nos acompanhar, transformando-se praticamente no meu ajudante e motorista. Trazia as suas bandeiras. Uma delas, a nacional, um belo estandarte de tecido fino, soberanamente bem cuidado, que não deixava ninguém tocar, era o seu orgulho. Como era seu amigo e médico, tinha o privilégio de a empunhar sempre que o desejasse. Bom, e as histórias que passámos juntos? E as histórias que me contava e as que revivíamos? E as festanças durante as campanhas, a ponto de corrermos o risco de ter de as encurtar por motivos óbvios? E o último dia da campanha em que éramos os últimos a fechar a caravana? Tantas recordações. Mentalmente disse-lhe que não ia ao funeral no dia seguinte, já tinha tudo preparado para passar três dias paras as bandas de Ponte de Lima e como já nos tínhamos despedidos em vida há poucas semanas, agora era eu que me despedia dele, morto, mas, ao menos, sabia que estava tranquilo e sem sofrimento. Apeteceu-me pedir-lhe a bandeira que tantas alegrias nos deu e que está impregnada de bons e saudáveis sentimentos e recordações. Não é que me seja difícil arranjar uma, mas aquela, aquela é muito especial. Ou aquela ou nenhuma. Saí. No dia seguinte fiz o percurso e à noite, sábado minhoto, sábado de alegria, no meio daquelas aldeias espalhadas pelos montes e várzeas, deslumbrei-me com inúmeras manifestações de vida. Arraiais e músicas ecoando por toda a parte, misturando-se umas com as outras e sinos das igrejas a darem as meias-noites, perfeitamente dessincronizadas, como se cada uma tivesse o seu próprio tempo, o mesmo acontecendo ao fogo de artifício que emanava de todos os pontos cardeais, num verdadeiro foguear ao desafio. Uma noite suave, cheia de encanto, de cor, de som, de vida, de esperança, de alegria, tudo a emergir da terra em direção ao céu, como se fosse a melhor forma de dar significado à existência, deixando, o que lhe fica nas suas entranhas, entregue ao esquecimento.
Na varanda da casa minhota, rodeada por uma natureza única, bela e fértil, começo a sentir uma brisa fria transportada pela noite. Deve ser o Lima, pensei. Há pouco passei o rio de uma margem até à outra e olhei para as suas águas na esperança de que me fizesse esquecer. Não surtiu efeito. Será que esta brisa riscada de humidade, proveniente do rio do esquecimento conseguirá ajudar-me a passar a noite?

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