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Olhos



A primeira coisa que faço quando encontro ou cruzo-me com alguém é ver os olhos. Também deve ser o que os outros fazem comigo. Os primeiros olhares são reveladores de uma conversa profunda mesmo antes de começar. Simpatia, desconfiança, atração, medo, ternura, raiva, sedução, desprezo, amor, ansiedade, fé, esperança, indiferença, vaidade, soberba e até o anúncio da própria morte, tudo, mas mesmo tudo, pode ser visto ao primeiro olhar, incluindo o vazio de uma alma cega e perdida.
Atraem-me os olhares, não os evito, procuro-os e enfio-me através deles até entrar numa intimidade que julgamos ser só nossa. Se os olhos permitem ver o que se passa em nosso redor, então, também, têm de deixar de ver o interior da alma. São portas que se abrem, embora alguns tentem fechá-las. Mesmo os cegos deixam transparecer os seus sentimentos nos olhares escuros da sua existência, não veem, mas deixam ver. Cruzo-me com cegos da cidade. Conheço muitos de vista. Nunca falei com eles, desconheço o timbre das suas vozes ou a força dos seus pensamentos. Andam pela cidade. Vejo-os nas paragens dos autocarros. Vão envelhecendo, sempre sem ver, mas deixam ver o seu interior.
Sou atormentado pelo primeiro olhar em que tive a consciência de ler a alma de outrem. Pequenito, não teria mais de cinco anos, passava junto a uma pensão perto da minha casa. Naquela altura as crianças andavam na rua com toda a naturalidade, protegidos pelos vizinhos e por anjos da guarda, entretanto desaparecidos ou reformados. Através da porta envidraçada vi uns olhos tristes, melancólicos, raiados de um estranho amarelo num branco que contrastava com a cor negra da pele. Era a primeira vez que via um negro. Não se mexia, estava encostado ao vidro olhando para a rua deserta, como se estivesse preso, preso do corpo e da alma. Parei, olhei-o com atrevimento e espanto, esperando uma reação qualquer. Olhava-me e não dizia nada, nem com os olhos, nem com a cara. Nada. Esperei. Ele olhou-me e deve ter percebido a minha admiração. Foi então que começou a sorrir,  primeiro com os olhos e só depois mostrando duas fileiras de dentes muito brancos. Eu também lhe sorri, acenei com a mão e disparei para casa para contar a minha aventura e achado. Ao chegar tive de voltar para trás, porque me lembrei que não sabia o seu nome. Os negros também devem ter nome, pensei. Ainda lá estava. Bati à janela e perguntei-lhe:
-Como é que te chamas?
- António.
- Ah! Bonito nome.

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