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Abril, 25...




Descansei. Consegui saborear as duas horas extras da manhã como há muito não me lembrava, pareciam que estavam reservadas para esse efeito, retemperar as emoções e os desejos, em contraposição com a leveza do sono entrecortado por despertares repetidos e inconsistentes, uma tortura própria de Morfeu, que, ao acordar da manhã, se dissipa sob a luz do sol, deixando-me penetrar profundamente nos seus domínios sem vigilância.
Arranjei-me. A cerimónia iria decorrer a cinquenta metros. Desci a calçada e as escadas de uma vida e cruzei-me com alguns cidadãos que vinham expressamente para o ritual do ano. O céu estava límpido e o sol queimava, enquanto a gravata, linda e com o nó perfeito, fazia o resto, apertava-me o pescoço e denunciava o formalismo do ato. Pequenas e curtas conversas, cumprimentos e mais cumprimentos, saudações ao longe, saudações ao perto, tudo com uma naturalidade aprendida ao longo dos anos. Ouvi ao longe a fanfarra dos bombeiros, afinada, como não podia deixar de ser, na véspera, à noite, testemunhei os exercícios musicais com vista a fazer boa figura no dia seguinte. 
Apareceram os homens da paz, deram os toques próprios da praxe, marcando os tempos do içar das bandeiras. A mim coube-me a habitual, a do concelho, prefiro esta, de longe, à da União Europeia, que ficou para o "senador" vitalício. 
Terminou a cerimónia. Cada um dispersou para as ruelas em redor, e a fanfarra encheu o espaço circundante com sons de alegria e de esperança, mas por pouco tempo. As bandeiras ficaram colocadas nos seus lugares. Sentei-me na esplanada, do outro lado da ribeira, saboreando a companhia de velhos amigos. Foi então que as olhei com olhos de ver, a bandeira nacional ladeada pelas do município e a azul com as estrelas amarelas. Três símbolos que não tugiam e nem mugiam. Falta-lhes o vento, pensei, falta-lhes o vento da esperança. Olhei para a ribeira e consolei-me com a frescura e a beleza das suas águas. Limpou-me as mágoas e acalmou a minha ansiedade, mas não deve ser por muito tempo. 
Um curto momento de esperança. Nada mais do que isso.

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