Avançar para o conteúdo principal

Olhos negros


Manhã bela e tranquila. O sol, atrevidamente, entrava no gabinete, não sei se por curiosidade ou por bondade. Os seus raios iluminaram um belo par de olhos negros, muito brilhantes. Por momentos fiquei sem saber se era o reflexo do sol ou raios emitidos por um sol invisível. Jovem. O cabelo chamou-me a atenção, cortado à escovinha, encaracolado, e salpicado de brancas, dava conta de que estaria a ver pela primeira vez o sol, recém  libertado de uma prisão artificial. Antes de lhe falar entrega-me o papel, onde estava descrito a sua má fortuna de uma forma fria, exata e dolorosa. Li e registei. Os olhos negros continuavam a brilhar emitindo raios de um sol invisível receoso do seu congénere que continuava a invadir todo o espaço e todos os seres visíveis e invisíveis. Desabotoou os botões da sua blusa, deixando entrever na frescura da carne a mutilação anunciada. Não falámos muito, usámos mais os silêncios e os olhares entremeados de curtas e esclarecedoras frases. No final, despediu-se com os seus olhos negros, brilhantes, mas mais tranquilos, como se o sol interior tivesse, subitamente, perdido o receio. Agora eram dois sóis que, em simultâneo, iluminavam o mesmo espaço, com calor, com luz apaziguadora e cheios de esperança.
Não fiz qualquer distinção entre os dois...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Tique preconceituoso". Um contributo

Também "sei" fazer análises sobre a situação do país, pelo menos tento fazer com alguma imparcialidade e sem preconceitos. Tento fazer, mas confesso que é difícil, quase que diria é impossível. Nenhum cidadão se pode considerar impoluto e imparcial na análise de quem quer que seja ou na interpretação de inúmeros factos e situações. Tudo bem. E depois? Depois irrita-me muitos comentários e análises que refletem uma mistura dos factos que nos circundam e das personalidades de quem os analisa. Há quem impregne mais com o suor da sua personalidade - e suor é coisa que não cheira bem -, e há quem impregne menos. Relativamente a questões de vencimentos, reformas e coisas parecidas com ganhos justos ou injustos por parte dos políticos e altos dirigentes, é possível observar um movimento de contestação e de repúdio dos mesmos por parte de grande parte da população. Aparentemente compreende-se, os que contestam ganham pouco ou, até, nem ganham nada. Como travar esta contestação? Não s...

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.