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Mágoa...


É muito agradável quando uma pessoa se sente útil, ajudando quem necessita. Considero ser a mais bela e profunda expressão de humanidade, poder resolver ou contribuir para solucionar um problema, esclarecer uma dúvida ou aliviar e combater o sofrimento e o horror de um desconhecido por vezes demoníaco. É muito agradável e tem como compensação a alegria de ter ajudado quem necessita. Tão simples como isso, um princípio cristão, dirão, sim, mas que existiu desde sempre, por isso prefiro chamar-lhe a verdadeira marca da condição humana. 
Tenho feito o que posso e não posso fazer o que gostaria. Alguns, na sua humildade e sofrimento procuram-me para que os possa tratar ou ajudar. Como poderei ajudá-los, penso eu muitas vezes, impotente face ao desfilar da doença e ao avizinhar da morte. Falo, conversamos, rimo-nos, olhamo-nos e, por vezes, no final, até nos abraçamos, não vá acontecer ser a última vez em que cuidamos um  do outro. Fica sempre um sabor terno, doce, mas triste, que nunca mais se esquece. Há também outros que, à primeira volta, depois de terem sido objeto dos mesmos cuidados e atenções, viram as costas, ignorando-me, humilhando-me com os seus silêncios. Dói imenso. A natureza humana é mesmo assim. Sim, é, eu sei que é assim, mas não deveria ser. Há pessoas que não entendem o significado da ajuda e desconhecem a dor provocada pela indiferença, não digo ingratidão, apenas indiferença. Um jeito de ser diferente? Não, apenas a forma de manifestar uma mágoa...

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