Avançar para o conteúdo principal

Mágoa...


É muito agradável quando uma pessoa se sente útil, ajudando quem necessita. Considero ser a mais bela e profunda expressão de humanidade, poder resolver ou contribuir para solucionar um problema, esclarecer uma dúvida ou aliviar e combater o sofrimento e o horror de um desconhecido por vezes demoníaco. É muito agradável e tem como compensação a alegria de ter ajudado quem necessita. Tão simples como isso, um princípio cristão, dirão, sim, mas que existiu desde sempre, por isso prefiro chamar-lhe a verdadeira marca da condição humana. 
Tenho feito o que posso e não posso fazer o que gostaria. Alguns, na sua humildade e sofrimento procuram-me para que os possa tratar ou ajudar. Como poderei ajudá-los, penso eu muitas vezes, impotente face ao desfilar da doença e ao avizinhar da morte. Falo, conversamos, rimo-nos, olhamo-nos e, por vezes, no final, até nos abraçamos, não vá acontecer ser a última vez em que cuidamos um  do outro. Fica sempre um sabor terno, doce, mas triste, que nunca mais se esquece. Há também outros que, à primeira volta, depois de terem sido objeto dos mesmos cuidados e atenções, viram as costas, ignorando-me, humilhando-me com os seus silêncios. Dói imenso. A natureza humana é mesmo assim. Sim, é, eu sei que é assim, mas não deveria ser. Há pessoas que não entendem o significado da ajuda e desconhecem a dor provocada pela indiferença, não digo ingratidão, apenas indiferença. Um jeito de ser diferente? Não, apenas a forma de manifestar uma mágoa...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...