Costumo escrever diretamente no computador.
Habituei-me há muito a descrever os meus pensamentos desta forma eletrónica. No
entanto, reconheço que, por vezes, tenho necessidade de usar uma folha em
branco e uma caneta. Revejo a minha letra e vejo-me a mim próprio.
O som da ponta da caneta a correr no papel seduz-me,
um encanto que não tem nada a ver com os sons do teclado. O papel absorve como
uma esponja o que me vai na alma. É a melhor forma de a limpar ou de a
desnudar. As palavras saem com outra cor, com outro sentimento e as letras
apresentam-se de forma diferente, umas vezes bem desenhadas, outras não, até
parece que ficam desorientadas. Às vezes correm mais depressa do que o próprio
pensamento, enquanto outras ficam meio paralisadas sem saberem por onde ir.
Olho, risco, leio e passo em frente. Uma vontade febril, quase louca, impele-me
a escrever e a ver as imagens que se escondem atrás das palavras que eu vou
entretanto pintando, esculpindo, cantando, escondendo, sempre ao som único da
caneta que desliza na folha de papel de um pequeno bloco que se sente feliz por
o amar desta maneira. É o que faço neste momento. Breve intervalo em que olho
para o computador e escrevo à mão. Sabe bem. É muito melhor e mais transparente,
embora haja letras e palavras que se enervam e se enchem de ansiedade por não
serem desenhadas há muito tempo com a paixão e cuidado que tanto desejam.
Ultimamente tento fazer-lhes essa vontade.
Elas agradecem, riem-se, brincam e não amuam quando as risco ou introduzo
qualquer palavra intrusa entre as vizinhas ou as substituo por outras mais
apropriadas ou apaixonadas.
As palavras não são invejosas, apenas pedem que as relembrem, desenhando-as com os escritos da alma.
As palavras não são invejosas, apenas pedem que as relembrem, desenhando-as com os escritos da alma.
Comentários
Enviar um comentário