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Greve de fome


Tenho acompanhado a greve de fome de um cidadão com dupla nacionalidade, angolana e portuguesa, Luaty Beirão. Reconheço que é um sacrifício difícil de compreender. Deixar de comer e enfrentar o risco de morte por motivos de natureza política? Para quê?
Comer é o mais poderoso estímulo que serve a vida, seguido da reprodução. São os dois principais motores da existência.
Renunciar à alimentação, como forma de pretexto pela iniquidade e falta de respeito dos que têm o dever de promover e defender os direitos e o bem-estar dos seus semelhantes, é uma das supremas formas de manifestação de amor. Morrer para defender os irmãos. Respeito muito esta decisão, porque permite-me recordar outras situações idênticas que, ao longo da história da humanidade, permitiram demonstrar a mais bela e estranha das solidariedades e contestação contra comportamentos que raiam ou são mesmo criminosos.
Gostava de acordar amanhã ou depois e ouvir que Beirão interrompeu a greve. Gostava muito, mas não acredito, porque o regime contra quem luta é perverso e reles até dizer basta. Um regime corrupto capaz de deixar morrer à fome, e manter na miséria, grande parte dos seus cidadãos, não obstante o luxo ostentado por muitas pessoas que lhe são familiares ou pertencentes aos homens do poder.
Horrível!
Também é horrível o silêncio de muitos, nomeadamente dos portugueses. Ninguém, nos denominados altos cargos políticos, fala, ou se fala é sempre num registo envergonhado ou meio-silencioso incapaz de enfrentar a realidade e denunciá-la. A hipocrisia tem destas coisas. Esconde medos e outras coisas pouco confessáveis em nome de interesses "superiores". A cobardia é a realidade mais comezinha da nossa sociedade. Não vejo os desejados discursos ardentes a explodir na atmosfera escura, porca e contaminada da nossa sociedade. Não vejo, não ouço e não sinto.
É pena! Gostava de ouvir os divertidos estados da Europa a criticar e a boicotar os negócios de um país que é dos mais corruptos do mundo, governado, chefiado ou comandado por pessoas que, afinal, não conhecem o verdadeiro significado da liberdade e do respeito. Esse país chama-se Angola. Não "é nossa", mas também não é dos angolanos, mas de um bando que coloniza e escraviza o seu próprio povo.
A morte por renúncia à alimentação constitui a forma mais expressiva de denúncia de uma situação que nunca deveria acontecer. Se morrer, muitos dos que estão escondidos atrás das suas posições e cargos políticos continuarão impávidos e serenos nas suas missões.

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