Avançar para o conteúdo principal

Sol negro


Apetece-me fugir da vida, mas acabo por verificar que é a vida que foge de mim. A sensação de frustração é violenta e muito dolorosa. Olho, ouço e sinto que não consigo encontrar o meu lugar. Cada dia que passa fico mais distante do desejado. Almas humanas embrutecidas, cuja aparente humildade esconde muita arrogância e oceanos de mesquinhez, ofendem-me e fazem com que não entenda o verdadeiro significado da fé. Fé? Sorrio. Uma palavra que começo a desprezar e até a odiar. Fico confuso com tão estranhas sensações, querer ajudar os que precisam e lutar pelo meu desejado e cada vez mais distante destino. Apetece-me fugir, mas a vida goza comigo. É ela que foge com arrogância e desprezo a ponto de querer esquecer tudo e refugiar-me numa torre, não de marfim, mas de ilusões, doces, suaves e coloridas, capaz de pulsar ao som do bater de um pobre coração enlouquecido por ter viver uma vida sem qualquer sentido. Fujo. Apago-me. Silencio-me. Amuralho alguns pensamentos. Os que saem, ainda, procuram as brechas de paredes rochosas que tento colocar em meu redor até poder sucumbir sem fé, sem esperança e sem dor no silêncio do esquecimento, afastado de um mundo que me ofende e humilha a cada dia que passa. Custa sentir a vida cheia de farpas, de ignomínias, de desprezo, de falta de sentido, parca em recompensas e, sobretudo, incapaz de oferecer um amor vivo que me permita adubar as sementes de novas ideias e desejos que vagabundeiam na minha alma. Acabam por morrer nas sombras da indiferença e no silêncio de um sol negro.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...