Avançar para o conteúdo principal

Montanha

Fui atrás do sol, convicto de que encontraria paz, beleza e silêncio. Penetrei no ventre da serra despovoada, estranha, calada, indiferente à minha passagem, cheia de segredos, sem lágrimas, sem gritos, sossegada e, por que não dizer, desconfiada. Viajei com a angústia dos meus pensamentos. Vivem comigo, massacram-me a qualquer momento e obrigam-me a pensar no futuro com os seus tenebrosos acenos. Tentei libertar-me, mas não foi fácil. O belo sol não conseguiu apagar o mal-estar que sentia. Revivi velhas paisagens, passei por localidades cada vez mais vazias, cruzei-me com algumas pessoas, idosas, sem futuro, esquecidas do passado, com almas geladas à procura do calor de uma tarde de outono, talvez com esperança de não sentir o sofrer prometido pelo advir. Vi o que já vi, senti o que já senti e ouvi o que queria ouvir, o mais belo silêncio da montanha adormecida sob um sol quente e indiferente à vida da pobre gente. Foi o que quis sentir. À medida que me ia afastando comecei a desfrutar alguma tranquilidade embrulhada em saudade da montanha que ia ficando cada vez mais distante. Depois, recordei a tarde, as cumeadas, as paisagens de verdes diferentes, as folhas douradas e vermelhas de árvores arrogantes e sem vergonha em mostrar a nudez perante o desejado inverno. Consegui, talvez devido à magia das serranias, expulsar a angústia dos meus pensamentos. Foi quase ao chegar que me libertei do mal-estar que me perseguiu. Agora, reconstruo os pormenores do meu percurso. Tantos, diversos, onde pontuam recordações em tempos semeadas e lembranças que, entretanto, foram libertadas e que andavam à minha procura. Encontrei-as.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Tique preconceituoso". Um contributo

Também "sei" fazer análises sobre a situação do país, pelo menos tento fazer com alguma imparcialidade e sem preconceitos. Tento fazer, mas confesso que é difícil, quase que diria é impossível. Nenhum cidadão se pode considerar impoluto e imparcial na análise de quem quer que seja ou na interpretação de inúmeros factos e situações. Tudo bem. E depois? Depois irrita-me muitos comentários e análises que refletem uma mistura dos factos que nos circundam e das personalidades de quem os analisa. Há quem impregne mais com o suor da sua personalidade - e suor é coisa que não cheira bem -, e há quem impregne menos. Relativamente a questões de vencimentos, reformas e coisas parecidas com ganhos justos ou injustos por parte dos políticos e altos dirigentes, é possível observar um movimento de contestação e de repúdio dos mesmos por parte de grande parte da população. Aparentemente compreende-se, os que contestam ganham pouco ou, até, nem ganham nada. Como travar esta contestação? Não s...

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.