Fogem da morte. Escondem-se da morte. Negam a morte. A morte passou a ser coisa feia, má. Morre-se sozinho. Morre-se às escondidas, longe de tudo e de todos. A morte é a negação da imortalidade, o néctar que inebria os candidatos a deuses. Há quem não a veja e quem não a quer ver. Há quem nunca lhe tocou e não a quer sentir. Toquei-lhe muito cedo. Estava fresca num dia de verão. Não cantava e nem dançava. Não sorria, mas não estava triste. A pele fazia recordar a velha boneca de aspeto amarelado, cera suave que não se derretia. Vi qual era a sua cor, senti a sua frescura e admirei-me com o seu silêncio e tentei mergulhar num mundo que não era o meu, nem era o nosso. Lado a lado, cada um no seu mundo. Que coisa mais estranha. Não senti dor, não chorei, nem senti tristeza, apenas um vazio que ainda hoje perdura, sem saber porquê, talvez por ter acabado de aprender o que era viver, tocar e sentir a morte que estava ao meu lado.
Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite. Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.
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