Avançar para o conteúdo principal

"Tarde"...


A tarde está cheia de vazios, sem sabores, sem cheiros, sem nada que me convença que valha a pena ver, sentir e desejar. Tarde sem interesse, mergulhada em angústia, desprovida de sentido e de vontade de viver. Ouve-se apenas barulhos, de serras, de alguns automóveis e pouco mais. Ruídos que atropelam o silêncio. Aguardo que o tempo passe. Apenas boceja. Olha para mim como se eu fosse o culpado. Pobre tempo que não tem mais nada do que fazer do que estar a aborrecer-me. Embirrou comigo, como se tivesse culpa de ter nascido numa tarde sem interesse. Tento explicar-lhe que estou farto de o sentir. Ri-se, goza comigo, e boceja mais uma vez, uma autêntica provocação sem sentido. Quero fugir-lhe, mas não me larga. Vigia-me como se fosse um carcereiro maldoso que goza com a angústia de um pobre prisioneiro. Viro-lhe as costas, finjo que não ouço os ruídos da rua e tapo os ouvidos com auriculares que debitam música suave ao acaso. E o tempo boceja, sempre a bocejar, como se tivesse necessidade disso. Fá-lo por pura diversão. Eu finjo que não estou a reparar. Os dedos procuram as letras esperando que se acasalem umas com outras esperançado numa fértil explosão de ideias e emoções. Não sei se vão sair, não sei se querem procriar. Eu queria tanto, mas como, se o tempo boceja, boceja e até enoja de tanto bocejar. Roubo-lhe pequenas lascas da fímbria da sua roupa, roupa de um tempo que passa e que eu não vejo passar. 
Deixou de bocejar...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

Nossa Senhora da Tosse

Acabei de almoçar e pensei dar a tradicional volta. Hoje tem de ser mais pequena para compensar a do dia anterior. Destino? Não tracei. O habitual. O melhor destino é quando se anda à deriva falando ao mesmo tempo. Quanto mais interessante for a conversa menos hipótese se tem de desenhar qualquer mapa. Andei por locais mais do que conhecidos e deixei-me embalar por cortadas inesperadas. Para quê? Para esbarrar em coisas desconhecidas. O que é que eu faço com coisas novas e inesperadas? Embebedo-me. Inspiro o ar, a informação, a descoberta, a emoção, tudo o que conseguir ver, ouvir, sentir e especular. Depois fico com interessantes pontos de partida para pensar, falar e criar. Uma espécie de arqueologia ambulatória em que o destino é senhor de tudo, até do meu pensar. Andámos e falámos. Passámos por locais mais do que conhecidos; velhas casas, cada vez mais decrépitas, rochas adormecidas desde o tempo de Adão e Eva, rios enxutos devido à seca e almas vivas espelhadas nos camp...

Guerra da Flandres...

Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. Exmas autoridades. Caros concidadãos e concidadãs. Hoje, Dia de Portugal, vou usar da palavra na dupla qualidade de cidadão e de Presidente da Assembleia Municipal. Palavra. A palavra está associada ao nascer do homem, a palavra vive com o homem, mas a palavra não morre com o homem. A palavra, na sua expressão oral, escrita ou no silêncio do pensamento, representa aquilo que interpreto como sendo a verdadeira essência da alma. A alma existe graças à palavra. A palavra é o seu corpo, é a forma que encontro para lhe dar vida. Hoje, vou utilizá-la para ressuscitar no nosso ideário corpos violentados pela guerra, buscando-os a um passado um pouco longínquo, trazendo-os à nossa presença para que possam conviver connosco, partilhando ideias, valores, dores, sofrimentos e, também, alegrias nunca vividas. Quando somos pequenos vamos lentamente percebendo o sentido das palavras, umas vezes é fácil, mas outr...