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Migalhas doces

Assusta-me viver. À medida que o tempo rebola no universo sem fim, sinto cada vez mais vontade de saborear pequenas gotas ou migalhas doces de vidas que ainda se desenrolam perante mim. É o que faço diariamente. Encontro, ouço, vejo e sinto que o viver dos outros, seres que nunca vi, encerram em si o segredo da vida. Pequenas frases e olhares subtis explicam mais do que todas as palavras, tratados, poesias ou lições que já li ou estudei. No segredo do anonimato de uma curta conversa ou breve encontro acabo por me encontrar. Ninguém mais sabe. Não importa, outros, como eu, devem sentir o mesmo; o segredo é saber saborear a presença de alguém que sabe partilhar a poesia da vida. Simples, fugaz, profundo, colorido, sentido e tão esquecido. Não há dia que Deus bote ao mundo que não encontre alguém desconhecido que me ajude a viver.
Viver assusta. No entanto, as vidas de pessoas anónimas, simples e esquecidas fazem lembrar as inúmeras espécies de flores silvestres que aparecem a qualquer momento cheias de liberdade e plenas de beleza. Aparecem como por encanto e desaparecem por momentos até que a memória nos obriga a recordar o perfume dos seus odores.

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Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

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