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Arte

Portugal sofre uma profunda crise. Não é a primeira vez que acontece. Ciclicamente renova a miséria como se fosse o fatal destino traçado por deuses imbecis ou embriagados. Nunca compreendi muito bem a razão de ser de tanta pobreza amancebada com a sua eterna amante, a tristeza. Por vezes enlouquece. São breves momentos em que uma efémera riqueza alucina um povo que passa a sonhar acordado. Depois, o sono da morte obriga-o a ter de sofrer a dor da ausência e a beber os dias cinzentos em que o sol da esperança se ausenta, deixando atrás de si a fome e o amargo desejo de se afogar na violência do tempo e do esquecimento. Vivi todos os tipos de tempos que Portugal já viveu. Todos, ou quase todos, concentrados num curto período de tempo, a minha existência. Cansa? Sim. Desgosta? Sim. Cansa e é fonte de amargura para quem foi ensinado a tentar gostar da vida. Ainda não consegui gostar verdadeiramente. No entanto, por breves instantes, sou capaz de vislumbrar a beleza da vida. Como? Através da arte. Não deixa de ser estranho que o deserto da miséria mata, através da fome, os que conseguem produzir com talento e paixão a realidade que só a fantasia da arte consegue.
Portugal sofre uma profunda crise. O país, em vias de desertificação, está triste e esfomeado. Consegue-se ouvir o ruído de estômagos vazios. No cinzento da vida atual sente-se um estranho frio que evole a partir de almas cada vez mais sofredoras. São seres que ficam indiferentes ao belo, não porque sejam insensíveis, mas porque perderam a esperança. Admiro e respeito os que produzem arte. Um alfobre de seres ainda mais miseráveis, mas que têm o condão de criar vida através das suas obras, mesma que as suas se esgotem na tristeza e na pobreza a que foram lançados. A esperança é a filha dileta dos artistas, porque sabem traduzir através da poesia a verdadeira fantasia que deveria ser a nossa vida.
Olho para o quadro e vejo a vida, a esperança e a fantasia. Um quadro entre muitos. E outros que ainda irei ter. Fome de arte? Prazer em viver? Não sei. Só sei que preciso de ser tocado pela beleza que emana das suas superfícies. Debaixo delas existem segredos, poemas, vidas e lembranças que não me canso de recordar e imaginar.

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