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"Síndrome de Natal"



Os dias que antecedem o Natal criam momentos únicos que importa saber interpretar. Há uma transformação acelerada. No meio da confusão motivada pela festividade surgem casos, recordações e sentimentos intensificados pelos dias falhos de sol e noites iluminadas pelas lareiras, o sol das longas noites.
Pediram-me que desse uma pequena olhadela. Nunca me tinham pedido nada parecido, até porque as portas estão sempre abertas e a disponibilidade em atender é uma constante, uma espécie de imagem de marca. Quando tratamos o sofrimento as portas desaparecem. Cruzei-me com a senhora. O seu rosto mostrava algo que não era habitual. Tinha-a visto há poucos dias. Hoje estava diferente, parada e com um sorriso triste. Pensei que estaria ali para tratar qualquer problema, embora sentisse um pequeno estremeção.
- Dá-lhe uma olhadela? Disse a enfermeira. Diz que tem um aperto na garganta. - Está bem. Fui ao seu gabinete e fiz-lhe um interrogatório rápido. Deduzi que uma estranha e enigmática ansiedade andava a devorar as entranhas da sua alma. Não sabia as causas. Fingi que estava a desvalorizar o caso ao mesmo tempo que sacava da minha caixinha pessoal de emergência onde guardo certos comprimidos. Retirei um e pedi-lhe que o colocasse sob a língua. Depois procurei um outro e coloquei metade ao lado do outro. - Pronto. Daqui a poucos minutos vamos falar. Agora, fique aqui à vontade. Fui à minha vida e vi mais duas pessoas. Depois, com todo o tempo do mundo, mandei-a entrar. Comecei a conversar, até que tive de lhe dizer: - O que é que vai na sua alma? A sua cara não esconde o que consigo ver. O que é que lhe aconteceu? As perguntas foram feitas de forma sucedânea, doce e libertadora. Digo libertadora porque duas lágrimas começaram a surgir indicando que estava a tocar no ponto sensível.
A senhora estava a sofrer a "síndrome do Natal". Recordava a infância e as outras noites em que partilhou as festividades com a família, nomeadamente a mãe que está institucionalizada devido a doença de Alzheimer e que não a reconhece. Expliquei-lhe o óbvio, a mãe está ausente e não sofre minimamente. - Quem sofre são os que a veem naquele estado. As lágrimas já não se sentiam envergonhadas; corriam livremente. Falei e disse-lhe que conhecia inúmeras pessoas que nesta altura sofrem de forma particular. Ironia da vida. A época de maior alegria pode, com o tempo, transformar-se em dias muitos tristes e cheios de sofrimento, a ponto de muitos desejarem que passe o mais rapidamente possível. - Com quem vive? Apreciei o prazer e a alegria como comentou. Depois, contei-lhe uma ou duas histórias. Expliquei-lhe as causas da sua ansiedade e a forma de a minimizar. Só sei que saiu mais confortável, sem lágrimas e com um sorriso capaz de enfeitar uma árvore de Natal.

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