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"Raspadinhos"

Observo sem surpresa os "investimentos" nos jogos da Santa Casa da Misericórdia. Um balúrdio! Fiquei também a saber que os portugueses começaram a gastar mais na "raspadinha" do que no euromilhões. Ganha-se menos, mas ao menos sabem logo se vão ter prémio ou não. No caso dos prémios pequenos são de imediato gastos em mais raspadinhas. Não sei se não iremos assistir a uma nova patologia, não profissional, mas lúdica, a "tendinite da raspadinha". Chega a ser epidémico e muito preocupante o número de pessoas que, freneticamente, raspam, raspam, para ganhar uns euros que são logo investidos em mais cartões. No final poucos irão obter lucros. Quem ganha é a Santa Casa que lá vai dando um ou outro prémio mais "chorudo" para reforçar a ideia de que consegue fazer feliz alguns portugueses. Não estou certo disso, pelo contrário, despendem as parcas economias e caem no desejo de jogar cada vez mais, viciando-se. É muito fácil ficar dependente de qualquer jogo.
Os portugueses são obsessivos em tudo que seja jogo. Jogam com o objetivo de ganhar algum para preencher o vazio das suas carteiras. Talvez por saberem disso, ou seja, a vontade de obter alguma coisa, porque a vida está mesmo mal, que as televisões usam, abusam e exploram muitos espetadores, talvez a maioria, a mais necessitada, quando são convidados a telefonar para um daqueles números de valor acrescentado, com IVA, claro. É horrível assistir a esta exploração por parte de entidades responsáveis através da intervenção dos seus "animadores" que estão constantemente a apelar, embora agora já falem em "moderação". Uma gaita. A mim não me convencem. É fácil compreender que assim conseguem fazer face aos seus problemas financeiros. Considero esta atitude mais do que lamentável, é horripilante e até obscena. Ponho-me a pensar, quantas pessoas deverão fazer esses telefonemas e quanto é que isso pesará nos seus parcos orçamentos? Muito, a meu ver, sobretudo para quem tem pequenas pensões. Um bom tema para ser investigado. Só tenho uma palavra para essa gente, dirigentes, responsáveis e "animadores" televisivos, chulos! E venham daí quem queira convencer-me do contrário.
Euromilhões, raspadinhas, telefonemas para o 760 ... ... por tudo e por nada, demonstram perfeitamente que está na massa do sangue da maioria dos portugueses ganhar qualquer coisa. Basta ver o desespero de muitos concorrentes quando vão ao "Preço Certo" e não ganham nada! Ficam com uma cara que até assusta. O sonho da maioria dos portugueses é jogar e ganhar, como se os deuses tivessem obrigação de satisfazer os seus desejos. Não ganham? Ganha-se amanhã ou depois. O que é preciso é ter fé. Como todos sabem a fé faz parte da cultura dos portugueses. Sempre ouvi dizer que é a "fé que nos salva"! Pois, que digam os promotores e os que vivem da fé dos outros, ganham, e não é pouco! Os deuses agradecem e se não agradecerem sempre mandam os seus acólitos agradecer em seu nome.
E os que jogam? Ficam um pouco mais "raspadinhos"!

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