Avançar para o conteúdo principal

"Alva"...


Há muito que não mergulhava nas águas de um rio. As águas do rio perseguem-me desde pequeno. Suaves, cálidas, com cheiro próprio, amolecedoras do corpo e tranquilizadoras da alma, são um privilégio para quem as procura. Roubaram há muito o meu rio. Procuro-o a montante, longe, onde ainda consigo encontrar-lhe a alma. Gosto de me cruzar com ela. 
Cada rio tem o seu encanto e beleza, quase que diria que tem um cheiro próprio. Hoje procurei outro rio, onde em tempos também mergulhei. Tem um cheiro diferente. As deusas dos rios são diferentes, mas todas elas provocam no corpo e na alma a mesma sensação de prazer. A melhor hora de a desfrutar é ao fim da tarde pelas vésperas. Registo com agrado o entorpecimento que me invade. Registo com agrado as emoções engavetadas que procuram avidamente o ar e a liberdade. Registo com agrado a sensação de viver. Registo com agrado as carícias amigas do tempo. Registo com agrado o esquecimento. Registo com agrado o nascer de uma esperança. Registo com agrado a paz das belas ninfas das águas do rio. Registo com agrado ter mergulhado no Alva. 
Registo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...