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"Más-línguas"...

Acompanhar as pessoas ao longo dos anos ajuda-me a compreender melhor a natureza humana. Nesse aspeto sou um privilegiado. Doentes que envelhecem e que conseguem sobreviver a acontecimentos graves aliciam-me sobremaneira. Muitos, quase que me apetecia dizer, ultrapassaram o "prazo de validade" há muitos anos, pelo menos em termos simbólicos. Queixam-se de que mal conseguem pôr-se em pé, em caminhar, que têm dificuldades de vária ordem, mas, mesmo assim, querem viver. Queixam-se de que estão a dar as "últimas", prestes a "dar a côdea", de que é a última vez que me veem, enfim, o habitual, um ritual rodeado de tristeza e de um acabrunhamento que me provoca mal-estar. O arrastar-se, o arrojar-se na cadeira, os beiços caídos e incapazes de segurar a saliva, as pálpebras reviradas e avermelhadas, os sons meio percetíveis a saírem de gargantas roucas, os tremores das mãos e a falta de expressão facial incomodam-me, e muito. - Pois é! Queixas, só queixas, mas mesmo assim vai enterrando os outros. Lá na sua terra tem sido um pandemónio, soube que morreu fulano e sicrano. - Pois foi senhor doutor, pois foi. - Está a ver? Muitos até são mais novos e já lá vão. - Pois já. Pois já. Deixe-os ir. Deixe-os ir. Eu ainda não quero. - Ai não quer? - Não, não quero, deixe-os ir, deixe-os ir, eu ainda vou bebendo uns campanários. - Beber o quê?! - Uns campanários, senhor doutor, uns campanários, mas do meu vinho. - Do seu vinho? - Sim. E começou a rir, babando-se de felicidade, para as quais contribuíram algumas recordações de episódios rocambolescos de que foi protagonista em tempos idos em que não lhe faltavam forças nas pernas e manhosice no coração. - O coração está bom, não está? - Não, não está, mas como já não pode andar nessas marotices de saias, ainda vai dando para conversar e recordar esses momentos. Mas não se entusiasme muito. O riso triplicou e justificou-se: - São más-línguas. São más-línguas. - Más-línguas? - Eu tenho a fama. Interrompi-o dizendo-lhe: - E o proveito. Depois continuamos a conversa. Quando ia a sair, a tristeza invadiu-o de forma acentuada e algumas lágrimas de emoção afloram-lhe aos olhos. - Nunca mais cá volto. É a última vez. - Pois bem, vai ver que volta. Combinámos que a próxima consulta seria no dia dos finados. - Dia dos finados? - Sim. - Boa ideia. Pode ser, pode ser. Prefiro passá-lo com o senhor doutor do que com os outros gajos. Pode ser. 

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