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"O dia em que o diabo anda à solta"...


Há muitos anos, neste dia, em período de férias, bate-me à porta uma senhora que era minha doente e que vivia numa pequena povoação. Pedia-me com insistência para a ver. Via-se perfeitamente que estava muito assustada e movimentava-se sem parar. Disse-lhe que sim que a consultava. Já a conhecia desde há algum tempo, e apesar de algumas perturbações comportamentais nada adivinharia uma descompensação daquela intensidade. Fiquei intrigado. No decurso do exame a senhora acabou por me dar a "explicação" para o facto. - É o diabo, senhor doutor. É o diabo! - É o quê?! Perguntei-lhe incrédulo. - É o diabo que não me larga. Apanhou-me. Agora não sei o que fazer. Libertaram-no. E foi logo ter comigo. O quadro configuraria um quadro psicótico mais grave do que pensava, mas fiquei na dúvida, porque a par daquilo a que se poderia chamar delírio, o resto da conversa era normal, sem grandes problemas, exceto quando falava do diabo. Aquela coisa de dizer que o tinham libertado e que estava a atacá-la levou-me a perguntar-lhe: - Libertaram o diabo? Mas quem é que o libertou? - Quem o libertou? Então o senhor doutor não sabe? - Eu não. Eu nem o conheço e muito menos quem o libertou! - Então o senhor doutor não sabe que dia é hoje? - Sei, 24 de agosto. - Pois! É o dia em que o diabo anda à solta. É o dia de São Bartolomeu que o liberta todos os anos neste dia. - Ai sim, e liberta-o para quê? - É isso mesmo, porque é que o santo o liberta não sei. Um disparate, senhor doutor, um perfeito disparate libertar o diabo. Que raio de santo é este. - Pois, de facto, o São Bartolomeu não devia fazer isso. Mas olhe, é só hoje, amanhã já vai agrilhoá-lo e fica tudo bem. Vai tomar estes comprimidos e enfie-se em casa, ouviu? Depois de amanhã é sábado. Apareça para ver como está. E assim foi, quando apareceu estava perfeitamente "normal". - Então, como vai isso? - Agora estou bem. E estava, calma, sem discurso paranoico e até brincava com a situação. - O pior é para o ano. - Para o ano o diabo vai atormentar outra pessoa, descanse. Ele nunca volta a atacar a mesma pessoa duas vezes. - Não? - Não! - Como é que sabe? - O São Bartolomeu liberta-o uma vez por ano para não que não se revolte e tem a promessa de que não vai atormentar ninguém. Claro que é promessa de diabo, mas mesmo assim é uma promessa. - Ai que alívio! Obrigada, senhor doutor. - Vá em paz. Vá com Deus.
Hoje é um dos dias mais curiosos do ano, talvez até o mais curioso, se atentarmos nas lendas e em muitos rituais que se praticam por esse mundo fora. Também é um dos dias mais negros da história, talvez seja por esse facto que se tenha criado o mito de que o diabo anda à solta, quando, na noite de 24 de agosto de 1572, os católicos, em França, cometeram um dos mais sangrentos crimes, ao assassinarem selvaticamente, sem dó e em nome da religião, dezenas de milhares de huguenotes, um movimento que se prolongou por largas semanas. Um momento da história que merece ser recordado. Nessa noite, a televisão apresentou o filme a "Rainha Margot" realizado com base na obra homónima de Alexandre Dumas. Um retrato feroz da face não oculta da religião, que mostrou com toda a nudeza como pode ser tão cruel. De facto, a matança daquela noite só podia ter sido obra do diabo, mas do "diabo humano", não do "outro", do "capeta", porque São Bartolomeu nunca deixaria, e se fizesse asneira no ano seguinte já não teria a sua folga anual...

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