Avançar para o conteúdo principal

"Sono"...



- Estás com sono? - Não. Embora me apetecesse dizer a verdade, que sim, que estava, mas não disse. - E tu? - Estou cheiinha. Vou mas é para a cama. 
Criei o título segundos antes de me ter perguntado se estava como sono, porque estava mesmo, mas queria escrevinhar qualquer coisa antes de me deitar. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é como desejar uma noite sossegada e repleta de sonhos confortadores. Uma forma de fugir à realidade e criar uma outra, diferente, feita à minha medida. Para isso precisava de saber o que é uma medida de vida, o que desconfio muito. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é sentir um peso suave capaz de alimentar a vida, acender a esperança e apagar o receio e a incerteza. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é parar o tempo e congelá-lo com um ardor quente de sentimentos e doces lembranças. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é despertar para uma nova dimensão, a da paz, a da alegria e a do espanto por tudo que desconheço e que gostaria de saber. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é saborear as correntes da vida de tantos que me acarinham. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é viajar para espaços sagrados onde só a alma consegue transformar o futuro em delicadas brisas. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é falar com quem já há muito deixou de falar. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é despertar quem amámos do seu sono eterno. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é dar vida à morte. 
Escrevinhar sob o efeito do sono é recordar, é profetizar e é ver o que desejo sentir e esquecer. 
Tenho sono. 
O que eu queria era escrevinhar apenas sob o efeito do sono. Toda a noite. Toda a vida... 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...