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"Nada"...


Nada. Não tenho nada para fazer. O sol queima. Deve estar furioso com qualquer coisa. Fica assim quando o aborrecem, mas não fui eu. É o que eu penso. O melhor é ficar em casa até que acalme e fique mais dócil. Aquilo passa-lhe. Logo, para o final da tarde, fica mais calmo, mais doce, mais terno e mais humano. É a melhor hora para conversarmos. Ele sabe disso, sobretudo nesta altura em que não faço nada. Sabe, porque tem ciúmes da lua, que nesta época mostra a sua beleza em toda a plenitude. Agiganta-se com a sensualidade de agosto e permanece assim durante muito tempo apagando tudo em seu redor. Nada brilha, a não ser ela. O seu silêncio, perturbador, atrai, e põe qualquer um a conversar com ela. Prenhe de satisfação e de alegria, anuncia vida nova, a vida que alimenta a alma dos poetas. Olhá-la é saborear a liberdade. Ela sabe. Por isso é que engravida sempre nesta altura e entrega o fruto do seu ventre apenas a quem a sabe respeitar. O sol sabe disso e fica invejoso por não lhe darem a atenção que merece. Sempre o mesmo. Nunca mais cresce. Não sabe que é o pai da luz da noite. Mas só posso dizer-lhe isso à noite, quando ele não está. Mas um dia, quando for noite para mim e dia para ele, vou-lhe contar esse segredo. Vai ficar feliz e eu também. Nada vai ser como dantes. Nada é apenas um segredo que se oferece em troca de nada, quando não houver mais nada para fazer.


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