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A imagem

Andei sem sombra sob o céu da dúvida. Céu quente como a fornalha de Pêro Botelho. Andei sem parar à procura de uma sombra, a sombra do silêncio no meio do esquecimento da vida. Andei com o coração aberto, desejoso de encontrar sopros inocentes vindos de almas no meio de matas esquecidas e perdidas, onde se respira o ar desconhecido que conforta quem quer viver sem ser visto. Não ser visto, não ser conhecido, não ser invejado é a melhora forma de apreciar a essência do ser. Algo transitório que merece ser saboreado como sendo o mais novo e flagrante aroma da existência. Foi o que fiz. O calor ameaçador de uma trovoada frustrada impediu-me de ver algo que começa a ser comum nos nossos meios, feiras modernas, todas com o mesmo figurino. Saí, ou melhor, fugi, e galguei o monte sagrado à procura da ermida que conheço desde há muito. Subi e não me cruzei com ninguém. Nem uma viatura, nem uma pessoa, apenas o doce sussurro de almas desconhecidas que agradeciam o meu propósito. 
- O que é que vais fazer? 
- Vou lá cima ver a Senhora. 
- Mas já foste tantas vezes! 
- Pois fui. Mas hoje vou ver se tem novas imagens da santa. 
- Novas imagens?! 
- Sim. Novas imagens. Não te esqueças que há alguns anos comprei a última imagem e depois disso nunca mais vi nenhuma. Sempre que lá íamos, nada. Agora quero ver se já lá estão. 
- Não me digas que vais com esse propósito? 
- Vou, pois. Sou um curioso do caraças. 
- Só tu! 
Não respondi. Sou mesmo assim. Gosto de saber como é que o mundo desconhecido e sem sentido anda pelos montes e vales da minha vida. Cheguei à ermida e subi a escadaria. Olhei para a bica de água. Ativa, coisa estranha naquelas alturas e ainda por cima em tempo de seca prolongada. De onde viria aquela água? Só podem ser lágrimas das almas que para ali fugiram ou ficaram. Entrei no templo. A vitrina com os santos encontrava-se do lado direito. Santos, santas, santinhas, pagelas, imãs (?) e diversas coisas religiosas. Não liguei, procurei apenas se havia alguma Senhora de Mont´Alto. Havia. Afinal já mandaram fazer mais. Dois tamanhos. Até que enfim, pensei. No entanto, a minha, que foi a última da velha série, é diferente, maior e mais perfeita. Ainda bem que a comprei. 
Dei a minha volta pelo espaço para rever as imagens já conhecidas. Um velho hábito. Com o tempo quase as posso tratar por tu. A Pietá, linda, datada de 1722, olhou-me em silêncio. Eu também a olhei, não em silêncio, mas com um pensamento cheio de emoções e de interrogações. Do outro lado, a Santa Luzia, provavelmente da mesma altura, sorria. Retribui-lhe o olhar e recordei velhos pensares. Voltei a olhar para o altar lateral onde se encontrava a Pietá, e fiquei a saborear a beleza profunda e enigmática de uma Nossa Senhora com o Menino esculpidos num puro mármore branco. Tocou-me e eu não lhe toquei! Saí e saudei a guardiã que, pacientemente sentada num pequeno banco, parecia estar à espera do dia para se transformar em alma e ali ficar de braço dado com a eternidade. Não me reconheceu, e nem tinha que reconhecer. Mas eu sim, reconheci-a. 
Antes de acabar este texto fui ver a imagem. Está bem. Não me conhece, não sabe quem eu sou, mas eu sim, conheço-a e sei a sua história. Para mim chega. É suficiente para justificar mais um dia anónimo, vivido por desconhecidos, e saboreado como se fosse um delicioso conhaque.

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