Avançar para o conteúdo principal

Aves sem destino


Vejo, sobre a água tranquila e enfeitada de alegria, algumas aves a voar sem destino, sem saber de onde partiram e sem conhecer o que significa a palavra amanhã. São livres, não têm nomes, não sofrem inquietações, não precisam de saborear esperanças, não sabem o que são tristezas, apenas ondulam no ar olhando para as suas sombras que escorrem voluptuosamente sobre as águas vindas do mar. Uma forma de ser diferente da minha; invejo-as no que toca à alegria, ao esquecimento do seu passado e ao desconhecimento do seu destino onde não existe a palavra futuro. Andam. Vivem. Ondulam ao sabor do vento. Não rezam, não choram, apenas sabem desfrutar a liberdade e o encanto de viver sem ter nome, sem ter nada, a não ser a sua nudez. Livres. Livres de tudo e de todos, até de Deus. Que inveja. Gostava de ter tamanhas prerrogativas. Ser-se humano serve para pouca coisa, ou mesmo para nada, a não ser para compreender e invejar os que aves não sabem que têm. São livres, verdadeiramente livres, porque nem nome têm, e não tendo nome pertencem ao desejado e maravilhoso paraíso perdido.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

Nossa Senhora da Tosse

Acabei de almoçar e pensei dar a tradicional volta. Hoje tem de ser mais pequena para compensar a do dia anterior. Destino? Não tracei. O habitual. O melhor destino é quando se anda à deriva falando ao mesmo tempo. Quanto mais interessante for a conversa menos hipótese se tem de desenhar qualquer mapa. Andei por locais mais do que conhecidos e deixei-me embalar por cortadas inesperadas. Para quê? Para esbarrar em coisas desconhecidas. O que é que eu faço com coisas novas e inesperadas? Embebedo-me. Inspiro o ar, a informação, a descoberta, a emoção, tudo o que conseguir ver, ouvir, sentir e especular. Depois fico com interessantes pontos de partida para pensar, falar e criar. Uma espécie de arqueologia ambulatória em que o destino é senhor de tudo, até do meu pensar. Andámos e falámos. Passámos por locais mais do que conhecidos; velhas casas, cada vez mais decrépitas, rochas adormecidas desde o tempo de Adão e Eva, rios enxutos devido à seca e almas vivas espelhadas nos camp...

Guerra da Flandres...

Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. Exmas autoridades. Caros concidadãos e concidadãs. Hoje, Dia de Portugal, vou usar da palavra na dupla qualidade de cidadão e de Presidente da Assembleia Municipal. Palavra. A palavra está associada ao nascer do homem, a palavra vive com o homem, mas a palavra não morre com o homem. A palavra, na sua expressão oral, escrita ou no silêncio do pensamento, representa aquilo que interpreto como sendo a verdadeira essência da alma. A alma existe graças à palavra. A palavra é o seu corpo, é a forma que encontro para lhe dar vida. Hoje, vou utilizá-la para ressuscitar no nosso ideário corpos violentados pela guerra, buscando-os a um passado um pouco longínquo, trazendo-os à nossa presença para que possam conviver connosco, partilhando ideias, valores, dores, sofrimentos e, também, alegrias nunca vividas. Quando somos pequenos vamos lentamente percebendo o sentido das palavras, umas vezes é fácil, mas outr...